terça-feira, 20 de outubro de 2009

Paradoxo do nosso tempo

Que temos Edifícios mais altos, mas pavios mais curtos;
Auto-estradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos;
Gastamos mais, mas temos menos;

nós compramos mais, mas desfrutamos menos.
Temos casas maiores e famílias menores;

mais conveniências, mas menos tempo;
Temos mais graus acadêmicos, mas menos senso;

mais conhecimento e menos poder de julgamento;
Mais proficiência, porém mais problemas; mais medicina, mas menos saúde.

Bebemos demais, fumamos demais, gastamos de forma perdulária, rimos de menos, dirigimos rápido demais, nos irritamos muito facilmente,

ficamos acordados até tarde, acordamos cansados demais, raramente paramos para ler um livro, ficamos tempo demais diante da TV e raramente oramos.

Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores.
Falamos demais, amamos raramente e odiamos com muita freqüência.


Aprendemos como ganhar a vida, mas não vivemos essa vida.
Adicionamos anos à extensão de nossas vidas, mas não vida à extensão de nossos anos.

Já fomos à Lua e dela voltamos, mas temos dificuldade em atravessar a rua e encontrar-nos com nosso novo vizinho.


Conquistamos o espaço exterior, mas não nosso espaço interior.
Fazemos coisas maiores, mas não coisas melhores.

Limpamos o ar, mas poluímos a alma.
Dividimos o átomo, mas não nossos preconceitos.
Escrevemos mais, mas aprendemos menos.


Planejamos mais, mas realizamos menos.
Aprendemos a correr contra o tempo, mas não a esperar com paciência.

Temos maiores rendimentos, mas menor padrão moral.
Temos mais comida, mas menos apaziguamento.


Construímos mais computadores para armazenar mais informações para produzir mais cópias do que nunca, mas temos menos comunicação.


Tivemos avanços na quantidade, mas não em qualidade.

Estes são tempos de refeições rápidas e digestão lenta;
De homens altos e caráter baixo;
Lucros expressivos, mas relacionamentos rasos.


Estes são tempos em que se almeja paz mundial, mas perdura a guerra no lares;
Temos mais lazer, mas menos diversão;
Maior variedade de tipos de comida, mas menos nutrição.

São dias de duas fontes de renda, mas de mais divórcios;
De residências mais belas, mas lares quebrados.


São dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moralidade também descartável, ficadas de uma só noite, corpos acima do peso, e pílulas
que fazem de tudo: alegrar, aquietar, matar.

É um tempo em que há muito na montra e nada na despensa;


Um tempo em que a tecnologia pode levar-te estas palavras e tu podes escolher entre fazer alguma diferença, ou simplesmente apertar a tecla Del.»
NÉIA SAGAE*
DESPEDIDA

Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina e a gente,
seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro,
com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva,
já que ainda estamos tão embrulhados na dor
que não conseguimos ver luz no fim do túnel.

A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.

A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços,
a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida:
a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre,
sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também…

Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir,
lembrança de uma época bonita que foi vivida…
Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual
a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis,
mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente,
e que só com muito esforço é possível alforriar.

É uma dor mais amena, quase imperceptível.
Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’
propriamente dita. É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos
deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por
ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos,
que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou,
externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo.
Martha Medeiros
O contrário do Amor

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.
Martha Medeiros
A IMPONTUALIDADE DO AMOR

Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.

Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?

Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.

O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.

A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir "eu te amo" num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir "eu te amo" numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.
Martha Medeiros

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Homem-satélite

Ele sempre está rondando o que é seu. Mesmo que você não veja. Ou não saiba.
Quando se tem 16 anos, o amor é lindo. Não que se torne feio aos 27, mas a gente o vai encarando com um certo sarcasmo e autocrítica, pegando jogo de cintura. O que não é de todo mau. Depois de um namorado rasgar todas as cartinhas românticas que recebi antes das dele e picotar as fotos em que aparecia qualquer ser do sexo masculino ao meu lado (nem que fosse o seu lagartixo na parede), aprendi algumas lições bem úteis. A primeira é clara: nunca deixar perto de namorados ciumentos evidências da existência de vida sexual anterior ao atual relacionamento. E nunca me empolgar e contar que almocei com meu ex-professor de inglês com quem tive um caso no colégio nem descuidar e dizer que acho o primo dele um tremendo gostoso, muito menos confessar que, sim, liguei para o Carlos quando brigamos, mas que ele é só um homem-satélite.
Entenda assim: homens-satélites são ótimos, especiais, nos elogiam, sempre estão apaixonados (mesmo tendo nos visto a última vez na nossa festa de 15 anos), salivam de felicidade quando dizemos "oi, é a fulana, tudo bem?" e ficam praticamente a vida toda na órbita, mas nunca colidem. Não, não são babacas, apenas curtem uma coisinha meio platônica. Como você, que fica olhando para aquela Ferrari toda vez que passa pela loja, pergunta o preço, toca o couro dos bancos, mesmo sabendo que nunca irá possuí-la. Desejo puro, simples assim.
Sua namorada também tem homens-satélites. Todas nós temos, por mais que nossa carinha diga "você é o único homem para quem ligo quando engordo 500 gramas e começo a chorar me achando um canhão". Mas, acredite, os satélites não oferecem perigo ao namorado ou marido, no caso, a você. E não me venha dizer que isso é descaramento nosso! Não somos nós que cantamos qualquer baranga no bar depois do expediente para nos sentirmos mais seguros no mundo. Apenas precisamos de uma outra opinião de vez em quando, um outro homem - isento de qualquer obrigação amorosa - que nos diga quão lindas e interessantes somos. A questão aqui não é sexual. Sabemos que vocês estarão lá quando chegarmos em casa, prontos para o oba-oba de que tanto gostamos.
O ponto é: precisamos provar para nós mesmas que vocês (namorados e maridos) não são os únicos, mesmo sendo (ou não sendo, sei lá). Sentir a libertadora sensação de saber que, na hora em que vocês torrarem nossa paciência, teremos alguém para nos bajular até não agüentarmos mais. Saborear o poder de estar constantemente na cabeça de um homem, mesmo sem darmos notícias por meses a fio. Ou seja, brincar de Afrodite quando alguma coisa passa rasteira em nossa auto-estima.
Um dos meus satélites é um cara muito inteligente, adora Proust e Woody Allen, tem voz sexy, ama comida árabe, é romântico inveterado - enfim, tirando o fato de ter tártaro e usar meia branca, o homem perfeito. Perfeito para ser satélite. Ora, se eu namorar o homem perfeito, para quem vou telefonar quando brigar com o meu namorado? Pro mecânico? Pro dono do açougue? Isso não quer dizer que meu namorado não seja um homem especial - é óbvio que é, tanto que ocupa esse "cargo". Mas é meu namorado, e rola aquela obrigação emocional etc. etc. Talvez agora você entenda por que aquele mulherão vira e mexe te liga, mas nunca aceita o convite para uma noitada ardente na hidromassagem. Agora vocês vão dizer que isso é insegurança pura, que somos eternas menininhas precisando de elogios. É isso aí mesmo, algum problema?

A piranha te deixou

Você tomou um pé na bunda? Rá rá rá! Desculpe, foi mal.
O melhor que você tem a fazer é me odiar." Foi isso que eu li. Foi isso que fiz, mesmo involuntariamente: eu sempre odeio quem me deixa, mesmo que ainda o ame. Ou nunca tenha amado.
Não há como ser morno no fim do que, um dia, chamamos de amor: mulheres soluçam publicamente, homens choramingam para os amigos depois do porre, mas todos sofrem. No meio da festa ou trancado no banheiro. Não importa: o negócio é que pé na bunda dói.
Depois de lermos ou ouvirmos aquelas palavras pesadas e desagradáveis, nos perguntamos, tentando achar uma resposta convincente: mas como terminou? Diria o poeta que não termina, apenas parte para algum lugar desconhecido. Mas a verdade, a que se sente na pele, é que acaba. Vira pó, mais fino que bicabornato.
Raramente o amor é derrubado por um tiro só, mais fácil que seja por uma saraivada de tirombaços que demoramos a notar, tamanho o costume de estar ao lado da pessoa, tamanha a necessidade de manter as coisas como estão. Nos acostumamos a tudo - cheiros, hábitos, barulhos, gírias -, ignoramos óbvios sinais de enfermidade. Essa é a verdade, porque é difícil pacas assumir o fracasso de algo que construímos com o cuidado com que ergueríamos um castelo de cartas. Assistir à morte de um amor é como assinar embaixo em um atestado de incompetência: "Eu sou um fracassado sentimental".
Mas então puseram palitinhos em nossos olhos e fomos forçados a ver o paciente agonizando na UTI. E o vimos morrer, sem termos tempo de fazer mais nada. E ficamos ali, sofrendo como camelos, achando que nunca mais encontraremos o pires certo para nossa xícara. Ou - os mais teimosos, taurinos como eu - tentamos ressuscitá-lo e, depois de um tempo (ou dois, três tempos, depende do seu grau de insistência e burrice), percebemos que não sobrou nada mesmo. Só algumas recordações, roupas no armário, escova de dentes na pia e bichinhos de pelúcia. Daí é a hora de lavar a cara, rever os amigos preteridos pela piranha que te deixou, galinhar e encontrar alguém que te faça rir. Game over.
Sou perita em fins. Acho que já tive mais fins de relacionamento que começos. Sou passional, daquelas que escrevem laudas e laudas em louvor do morto, que chora com a cara enfiada no travesseiro, fica deprimida, toma Lorax, se humilha se for preciso. Curto a fossa até o fim, pra nunca mais ter de voltar ao assunto. Pelo menos naquele assunto. Não tenho o menor problema em admitir que sofro, e morro de pena dos que passam a vida fingindo não se afetar com nada, nem com a visão dela indo embora. Sabe o que te difere daquele chimpanzé do zoológico? A capacidade de pedir para ela ficar. Ou de mandá-la para o inferno.
Então está na hora de pararmos com essa babaquice de que homem não sofre, não fica deprê e não se comove com recordações. Você nunca sentiu nenhuma dessas coisas? Então acho que você é um chimpanzé. E nem sabe.
Mas, se você é homem digno do substantivo, tenho certeza de que já gastou pelo menos um pouco da sua cota de paspalhice emocional, já ouviu tiração de sarro dos amigos quando estava cabisbaixo por causa da Ermenegilda. Ficou feliz, como um cachorro que ganha osso, quando ela te ligou jurando arrependimento. Quis perfurá-la com espetos de churrasco ao descobrir que a desgraçada saía com o palhaço do seu amigo de faculdade. Ou mandou flores tentando reaver algo que já não te pertencia mais. Parabéns, você viveu, e está aí, pronto para me dar razão numa coisa: pé na bunda dói pra burro - na testa (algumas vezes), na carne (a maioria) e na alma (quando foi muito especial) -, mas sara. Sempre.

Mais amarga, impossível

Ando irreversivelmente pensativa. Não é tristeza, não é depressão. Só uma necessidade estranha de ficar quieta e observar. Será que isso é um contato com o Eu Interior? Pode ser. E, se for, até que é bom, porque às vezes o meu Eu Exterior (e o dos outros) me enche o saco.
Cansei de bundas. E de peitos. Tchutchucas e tigrões, então, me dão náuseas. Pra alguns - essas pessoas que vivem como se precisassem ficar cada vez mais atraentes pra não se sentirem um item encalhado na gôndola do supermercado - a embalagem é o mais importante num produto. É pelo brilho do papel que se atribui o valor da mercadoria (quem consegue negar que nos portamos como tal?). Eles se esquecem de que ninguém consome embalagens; o destino delas é o lixo.
Embrulho só serve pra proteger e embelezar o que realmente importa - o conteúdo. É, ainda sou ingênua o bastante pra acreditar nessa baboseira de conteúdo. Paciência.
Carnes balançantes, discursinhos ocos decorados e bíceps bem definidos não me atraem. Peitos empinados e quadris rebolantes não me fazem mover um músculo do meu corpo (como você é homem, eu compreendo se isso mover um músculo específico do seu). Devo ter nascido com alguns neurônios faltando, porque não consigo sacar a magnitude e a delícia que essas pessoas vêem em viver assim, indo, apenas indo. Sou medíocre demais pro hedonismo, talvez. Ou seja, sou careta mesmo. Caretésima.
O certo é que, quando olho à minha volta, me sinto um ser transgênico: gosto de dialogar, não de monologar narcisicamente sobre o quão grandioso é meu mundinho. Eu me sinto feliz em ajudar quem gosto e não só quando faço algo que seja proveitoso pra mim. Adoro conhecer pessoas pra poder, de alguma forma, fazer parte da vida delas e não pra acrescentar nomes e sobrenomes ao meu mailing. Tenho problemas sérios, como você pode notar. Mas o mais sério deles é pensar demais. "Dos ignorantes é o reino dos céus" é a maior verdade do universo: pensar nos lança ao inferno do questionamento. E é péssimo procurar por respostas quando ninguém está preocupado nem com as perguntas.
Se perdi a fé na humanidade e virei uma velha amargurada aos 24 anos? Não, isso é papel de vítima e não sou boa atriz o bastante pra interpretá-lo. Também não vou abandonar a cidade e me dedicar aos pés de alface: é uma solução covarde demais. Prefiro mudar o que consigo tocar em vez de sair correndo de medo. É pouco, mas é o que posso.
Esse não é um discurso moralista, por mais que pareça. É somente uma dúvida muito particular: onde estão as pessoas do mundo? Porque bonecos articulados de plástico com bundas de aço, eu vejo todos os dias na televisão, em academias, festas. Mas gente, daquelas que choram, contam piada, têm medo da morte e olham pra você e não por você, eu não encontro assim tão fácil.
Talvez eu esteja no supermercado errado.