Paradoxo do nosso tempo
Que temos Edifícios mais altos, mas pavios mais curtos;
Auto-estradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos;
Gastamos mais, mas temos menos;
nós compramos mais, mas desfrutamos menos.
Temos casas maiores e famílias menores;
mais conveniências, mas menos tempo;
Temos mais graus acadêmicos, mas menos senso;
mais conhecimento e menos poder de julgamento;
Mais proficiência, porém mais problemas; mais medicina, mas menos saúde.
Bebemos demais, fumamos demais, gastamos de forma perdulária, rimos de menos, dirigimos rápido demais, nos irritamos muito facilmente,
ficamos acordados até tarde, acordamos cansados demais, raramente paramos para ler um livro, ficamos tempo demais diante da TV e raramente oramos.
Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores.
Falamos demais, amamos raramente e odiamos com muita freqüência.
Aprendemos como ganhar a vida, mas não vivemos essa vida.
Adicionamos anos à extensão de nossas vidas, mas não vida à extensão de nossos anos.
Já fomos à Lua e dela voltamos, mas temos dificuldade em atravessar a rua e encontrar-nos com nosso novo vizinho.
Conquistamos o espaço exterior, mas não nosso espaço interior.
Fazemos coisas maiores, mas não coisas melhores.
Limpamos o ar, mas poluímos a alma.
Dividimos o átomo, mas não nossos preconceitos.
Escrevemos mais, mas aprendemos menos.
Planejamos mais, mas realizamos menos.
Aprendemos a correr contra o tempo, mas não a esperar com paciência.
Temos maiores rendimentos, mas menor padrão moral.
Temos mais comida, mas menos apaziguamento.
Construímos mais computadores para armazenar mais informações para produzir mais cópias do que nunca, mas temos menos comunicação.
Tivemos avanços na quantidade, mas não em qualidade.
Estes são tempos de refeições rápidas e digestão lenta;
De homens altos e caráter baixo;
Lucros expressivos, mas relacionamentos rasos.
Estes são tempos em que se almeja paz mundial, mas perdura a guerra no lares;
Temos mais lazer, mas menos diversão;
Maior variedade de tipos de comida, mas menos nutrição.
São dias de duas fontes de renda, mas de mais divórcios;
De residências mais belas, mas lares quebrados.
São dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moralidade também descartável, ficadas de uma só noite, corpos acima do peso, e pílulas
que fazem de tudo: alegrar, aquietar, matar.
É um tempo em que há muito na montra e nada na despensa;
Um tempo em que a tecnologia pode levar-te estas palavras e tu podes escolher entre fazer alguma diferença, ou simplesmente apertar a tecla Del.»
NÉIA SAGAE*
terça-feira, 20 de outubro de 2009
DESPEDIDA
Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina e a gente,
seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro,
com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva,
já que ainda estamos tão embrulhados na dor
que não conseguimos ver luz no fim do túnel.
A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.
A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços,
a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida:
a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre,
sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também…
Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir,
lembrança de uma época bonita que foi vivida…
Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual
a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis,
mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente,
e que só com muito esforço é possível alforriar.
É uma dor mais amena, quase imperceptível.
Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’
propriamente dita. É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos
deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por
ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos,
que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.
Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou,
externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo.
Martha Medeiros
Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina e a gente,
seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro,
com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva,
já que ainda estamos tão embrulhados na dor
que não conseguimos ver luz no fim do túnel.
A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.
A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços,
a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida:
a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre,
sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também…
Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir,
lembrança de uma época bonita que foi vivida…
Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual
a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis,
mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente,
e que só com muito esforço é possível alforriar.
É uma dor mais amena, quase imperceptível.
Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’
propriamente dita. É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos
deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por
ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos,
que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.
Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou,
externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo.
O contrário do Amor
O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.
O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.
Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.
Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.
Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.
Martha Medeiros
O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.
O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.
Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.
Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.
Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.
A IMPONTUALIDADE DO AMOR
Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.
Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?
Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.
O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.
O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.
A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir "eu te amo" num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir "eu te amo" numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.
Martha Medeiros
Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.
Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?
Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.
O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.
O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.
A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir "eu te amo" num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir "eu te amo" numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Homem-satélite
Ele sempre está rondando o que é seu. Mesmo que você não veja. Ou não saiba.Quando se tem 16 anos, o amor é lindo. Não que se torne feio aos 27, mas a gente o vai encarando com um certo sarcasmo e autocrítica, pegando jogo de cintura. O que não é de todo mau. Depois de um namorado rasgar todas as cartinhas românticas que recebi antes das dele e picotar as fotos em que aparecia qualquer ser do sexo masculino ao meu lado (nem que fosse o seu lagartixo na parede), aprendi algumas lições bem úteis. A primeira é clara: nunca deixar perto de namorados ciumentos evidências da existência de vida sexual anterior ao atual relacionamento. E nunca me empolgar e contar que almocei com meu ex-professor de inglês com quem tive um caso no colégio nem descuidar e dizer que acho o primo dele um tremendo gostoso, muito menos confessar que, sim, liguei para o Carlos quando brigamos, mas que ele é só um homem-satélite.
Entenda assim: homens-satélites são ótimos, especiais, nos elogiam, sempre estão apaixonados (mesmo tendo nos visto a última vez na nossa festa de 15 anos), salivam de felicidade quando dizemos "oi, é a fulana, tudo bem?" e ficam praticamente a vida toda na órbita, mas nunca colidem. Não, não são babacas, apenas curtem uma coisinha meio platônica. Como você, que fica olhando para aquela Ferrari toda vez que passa pela loja, pergunta o preço, toca o couro dos bancos, mesmo sabendo que nunca irá possuí-la. Desejo puro, simples assim.
Sua namorada também tem homens-satélites. Todas nós temos, por mais que nossa carinha diga "você é o único homem para quem ligo quando engordo 500 gramas e começo a chorar me achando um canhão". Mas, acredite, os satélites não oferecem perigo ao namorado ou marido, no caso, a você. E não me venha dizer que isso é descaramento nosso! Não somos nós que cantamos qualquer baranga no bar depois do expediente para nos sentirmos mais seguros no mundo. Apenas precisamos de uma outra opinião de vez em quando, um outro homem - isento de qualquer obrigação amorosa - que nos diga quão lindas e interessantes somos. A questão aqui não é sexual. Sabemos que vocês estarão lá quando chegarmos em casa, prontos para o oba-oba de que tanto gostamos.
O ponto é: precisamos provar para nós mesmas que vocês (namorados e maridos) não são os únicos, mesmo sendo (ou não sendo, sei lá). Sentir a libertadora sensação de saber que, na hora em que vocês torrarem nossa paciência, teremos alguém para nos bajular até não agüentarmos mais. Saborear o poder de estar constantemente na cabeça de um homem, mesmo sem darmos notícias por meses a fio. Ou seja, brincar de Afrodite quando alguma coisa passa rasteira em nossa auto-estima.
Um dos meus satélites é um cara muito inteligente, adora Proust e Woody Allen, tem voz sexy, ama comida árabe, é romântico inveterado - enfim, tirando o fato de ter tártaro e usar meia branca, o homem perfeito. Perfeito para ser satélite. Ora, se eu namorar o homem perfeito, para quem vou telefonar quando brigar com o meu namorado? Pro mecânico? Pro dono do açougue? Isso não quer dizer que meu namorado não seja um homem especial - é óbvio que é, tanto que ocupa esse "cargo". Mas é meu namorado, e rola aquela obrigação emocional etc. etc. Talvez agora você entenda por que aquele mulherão vira e mexe te liga, mas nunca aceita o convite para uma noitada ardente na hidromassagem. Agora vocês vão dizer que isso é insegurança pura, que somos eternas menininhas precisando de elogios. É isso aí mesmo, algum problema?
A piranha te deixou
Você tomou um pé na bunda? Rá rá rá! Desculpe, foi mal.O melhor que você tem a fazer é me odiar." Foi isso que eu li. Foi isso que fiz, mesmo involuntariamente: eu sempre odeio quem me deixa, mesmo que ainda o ame. Ou nunca tenha amado.
Não há como ser morno no fim do que, um dia, chamamos de amor: mulheres soluçam publicamente, homens choramingam para os amigos depois do porre, mas todos sofrem. No meio da festa ou trancado no banheiro. Não importa: o negócio é que pé na bunda dói.
Depois de lermos ou ouvirmos aquelas palavras pesadas e desagradáveis, nos perguntamos, tentando achar uma resposta convincente: mas como terminou? Diria o poeta que não termina, apenas parte para algum lugar desconhecido. Mas a verdade, a que se sente na pele, é que acaba. Vira pó, mais fino que bicabornato.
Raramente o amor é derrubado por um tiro só, mais fácil que seja por uma saraivada de tirombaços que demoramos a notar, tamanho o costume de estar ao lado da pessoa, tamanha a necessidade de manter as coisas como estão. Nos acostumamos a tudo - cheiros, hábitos, barulhos, gírias -, ignoramos óbvios sinais de enfermidade. Essa é a verdade, porque é difícil pacas assumir o fracasso de algo que construímos com o cuidado com que ergueríamos um castelo de cartas. Assistir à morte de um amor é como assinar embaixo em um atestado de incompetência: "Eu sou um fracassado sentimental".
Mas então puseram palitinhos em nossos olhos e fomos forçados a ver o paciente agonizando na UTI. E o vimos morrer, sem termos tempo de fazer mais nada. E ficamos ali, sofrendo como camelos, achando que nunca mais encontraremos o pires certo para nossa xícara. Ou - os mais teimosos, taurinos como eu - tentamos ressuscitá-lo e, depois de um tempo (ou dois, três tempos, depende do seu grau de insistência e burrice), percebemos que não sobrou nada mesmo. Só algumas recordações, roupas no armário, escova de dentes na pia e bichinhos de pelúcia. Daí é a hora de lavar a cara, rever os amigos preteridos pela piranha que te deixou, galinhar e encontrar alguém que te faça rir. Game over.
Sou perita em fins. Acho que já tive mais fins de relacionamento que começos. Sou passional, daquelas que escrevem laudas e laudas em louvor do morto, que chora com a cara enfiada no travesseiro, fica deprimida, toma Lorax, se humilha se for preciso. Curto a fossa até o fim, pra nunca mais ter de voltar ao assunto. Pelo menos naquele assunto. Não tenho o menor problema em admitir que sofro, e morro de pena dos que passam a vida fingindo não se afetar com nada, nem com a visão dela indo embora. Sabe o que te difere daquele chimpanzé do zoológico? A capacidade de pedir para ela ficar. Ou de mandá-la para o inferno.
Então está na hora de pararmos com essa babaquice de que homem não sofre, não fica deprê e não se comove com recordações. Você nunca sentiu nenhuma dessas coisas? Então acho que você é um chimpanzé. E nem sabe.
Mas, se você é homem digno do substantivo, tenho certeza de que já gastou pelo menos um pouco da sua cota de paspalhice emocional, já ouviu tiração de sarro dos amigos quando estava cabisbaixo por causa da Ermenegilda. Ficou feliz, como um cachorro que ganha osso, quando ela te ligou jurando arrependimento. Quis perfurá-la com espetos de churrasco ao descobrir que a desgraçada saía com o palhaço do seu amigo de faculdade. Ou mandou flores tentando reaver algo que já não te pertencia mais. Parabéns, você viveu, e está aí, pronto para me dar razão numa coisa: pé na bunda dói pra burro - na testa (algumas vezes), na carne (a maioria) e na alma (quando foi muito especial) -, mas sara. Sempre.
Mais amarga, impossível
Ando irreversivelmente pensativa. Não é tristeza, não é depressão. Só uma necessidade estranha de ficar quieta e observar. Será que isso é um contato com o Eu Interior? Pode ser. E, se for, até que é bom, porque às vezes o meu Eu Exterior (e o dos outros) me enche o saco.Cansei de bundas. E de peitos. Tchutchucas e tigrões, então, me dão náuseas. Pra alguns - essas pessoas que vivem como se precisassem ficar cada vez mais atraentes pra não se sentirem um item encalhado na gôndola do supermercado - a embalagem é o mais importante num produto. É pelo brilho do papel que se atribui o valor da mercadoria (quem consegue negar que nos portamos como tal?). Eles se esquecem de que ninguém consome embalagens; o destino delas é o lixo.
Embrulho só serve pra proteger e embelezar o que realmente importa - o conteúdo. É, ainda sou ingênua o bastante pra acreditar nessa baboseira de conteúdo. Paciência.
Carnes balançantes, discursinhos ocos decorados e bíceps bem definidos não me atraem. Peitos empinados e quadris rebolantes não me fazem mover um músculo do meu corpo (como você é homem, eu compreendo se isso mover um músculo específico do seu). Devo ter nascido com alguns neurônios faltando, porque não consigo sacar a magnitude e a delícia que essas pessoas vêem em viver assim, indo, apenas indo. Sou medíocre demais pro hedonismo, talvez. Ou seja, sou careta mesmo. Caretésima.
O certo é que, quando olho à minha volta, me sinto um ser transgênico: gosto de dialogar, não de monologar narcisicamente sobre o quão grandioso é meu mundinho. Eu me sinto feliz em ajudar quem gosto e não só quando faço algo que seja proveitoso pra mim. Adoro conhecer pessoas pra poder, de alguma forma, fazer parte da vida delas e não pra acrescentar nomes e sobrenomes ao meu mailing. Tenho problemas sérios, como você pode notar. Mas o mais sério deles é pensar demais. "Dos ignorantes é o reino dos céus" é a maior verdade do universo: pensar nos lança ao inferno do questionamento. E é péssimo procurar por respostas quando ninguém está preocupado nem com as perguntas.
Se perdi a fé na humanidade e virei uma velha amargurada aos 24 anos? Não, isso é papel de vítima e não sou boa atriz o bastante pra interpretá-lo. Também não vou abandonar a cidade e me dedicar aos pés de alface: é uma solução covarde demais. Prefiro mudar o que consigo tocar em vez de sair correndo de medo. É pouco, mas é o que posso.
Esse não é um discurso moralista, por mais que pareça. É somente uma dúvida muito particular: onde estão as pessoas do mundo? Porque bonecos articulados de plástico com bundas de aço, eu vejo todos os dias na televisão, em academias, festas. Mas gente, daquelas que choram, contam piada, têm medo da morte e olham pra você e não por você, eu não encontro assim tão fácil.
Talvez eu esteja no supermercado errado.
Não dá para não saber
Falar logo o que se quer: essa é a receita da felicidade.O mundo é feito por quem evita dizer não sei. E, se diz, faz logo alguma coisa pra ficar sabendo. Fernando Pessoa provavelmente não se contentava em tomar vinho do Porto no boteco e concluir que "a vida é complicada, então é melhor continuar aqui e ver a banda passar". Galileu não devia ser um bundão que olhava o céu e se consolava: "Sei lá como é essa porcaria". Não se faz nada nesta vida com não sei: nem estações espaciais, nem sexo. Nada.
Se os homens têm que ter resposta pra tudo? De maneira alguma. Existem perguntas para as quais não sei é o veredicto mais adequado: quem somos? Para onde vamos? Deus existe? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Mas, se ela o olhar daquele jeito que as mulheres olham quando querem uma resposta direta e clara e perguntar: "Eu devo insistir em nós dois ou ir embora agora?", não sei é a maior idiotice que você pode dizer. Desculpe o pragmatismo, mas é isso que sentimos. Quase nada consegue ser tão ruim quanto não fazer diferença, ainda mais quando quem está na sua frente faz. E muita.
Nessas duas inofensivas palavras há um mundo de sentimentos não compartilhados pelo questionado, e mata ignorar se eles são, mesmo minimamente, direcionados ao questionador. É um breu emocional em que não sabemos se nos jogamos no Rio Pinheiros ou nas águas de Bonito, e o outro (no caso, você) não faz a mínima questão de esclarecer.
É péssimo ficar boiando, sem saber o que esperar, pensar, fazer. Sem saber se é melhor dar no pé ou tacar fulaninho na parede e chamar de lagartixa. Sem saber se o envolvimento foi um tremendo desperdício de tempo e energia ou algo digno de pensamentos ao decorrer do dia. E sabe por que não sei é tão odioso? Por que não dá pra não saber. Ou se quer ou não. Se deseja ou não. Assim como você não fica em dúvida quando alguém te pergunta se você gosta de chocolate, cachorro ou empinar pipa. É sim ou não. Maniqueísmo puro.
Não sei é argumento de gente (mulheres também usam esse expediente) imatura demais pra arcar com as conseqüências do sim e muito medrosa pra dizer não. Dizer não sei àquela criatura é deixá-la à mercê da sua volubilidade, mantendo-a sob o jugo do "mistério", que, na maior parte das vezes, é somente uma atroz incapacidade de lidar com as pessoas.
Se não podemos ficar confusos com relação a sentimentos? Sim, é claro. Mas mesmo no meio da confusão vislumbramos pra qual lado nos inclinamos, notamos se tendemos a resolver a questão ou se preferiríamos dar um tapa e enviá-la a Júpiter. Enfim, sabemos. Porém é necessária uma boa dose de coragem e maturidade no ato de decisão porque cada opção é, em si, uma negativa perante o mar de outros possíveis caminhos.
Decidir é ultrapassar a infantil fantasia de que podemos ter tudo, sempre, ao mesmo tempo; é a humildade de reconhecer que vovó não estava gagá quando dizia que "quem tudo quer nada tem".
Já passei da idade dos joguinhos adolescentes "estou a fim de você mas não conto porque é sua obrigação sacar". Se quero alguém, informo. É tão mais fácil e saudável. Claro que já ouvi não. Tudo bem, ninguém é obrigado a cair de amores por mim. Mas, na boa, prefiro um não proferido nas fuças que um não sei pairando no ar. Um chega-pra-lá pelo menos é uma definição: então posso pegar meu barquinho, sem culpa nem "serás", e sair remando em busca de portos mais acolhedores. Vou embora e, apesar de ter sofrido, levo a certeza de que o melhor da vida é estar com quem sabe bem que me quer.
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Algo sempre falta
Nossa eterna insatisfação nos leva aonde exatamente?Casados reclamam porque a aliança pesa; namorados, porque não vêem mais os amigos; solteiros, porque não têm de quem receber o último telefonema do dia. Jovens são revoltados por não poderem fazer nada do que querem; velhos, por não conseguirem. Chefes se estressam porque vivem sob pressão e subordinados vivem estressados por causa dos chefes. Nunca estamos satisfeitos. Por mais azul que o céu esteja, sempre achamos - lááá longe - uma nuvem que virá, sabemos que virá, e cobrirá o nosso sol. E, mesmo sob 40 graus, passamos a sentir frio. "Nada mais insuportável do que muitos dias de felicidade contínua" (Oscar Wilde). É bizarro mas real. Não suportamos a felicidade por muito tempo; tudo fica fácil demais, tranqüilo, calmo e desde crianças aprendemos que, se algo vale a pena, precisa ser árduo, trabalhoso, hercúleo (e quanta deprê nos rende essa teoria patética). A ridícula verdade é que não sabemos lidar com a alegria - a praia eternamente ensolarada vira um tédio. E então avistamos (ou criamos, não importa) a nuvem.
Li, não lembro onde, que "a vida nos pareceria subitamente maravilhosa se estivéssemos ameaçados de morrer - então declararíamos nosso amor, viajaríamos à Índia, realizaríamos nossos sonhos. E caso o cataclismo não acontecesse, voltaríamos ao cotidiano, no qual a negligência supera o desejo". (A negligência supera o desejo - preste atenção nisso, sempre). Nossa eterna insatisfação, em vez de servir de impulso para nos levar a algum lugar melhor, vira uma âncora, agravando a sensação de impotência, nos entregando à inércia. Então sucumbimos à preguiça. Passamos a achar que o normal é estarmos "meia-boca" (não estamos felizes, é certo, mas por que razão haveríamos de ficar mais tristes?). E daí, quando alguém aparece sorrindo além do previsto por lei, surtamos. Por que ele ri e nós não? Por que tantos dentes? Cadê a graça? Viu passarinho verde?
É divertido observar a irritação de alguns perante a alegria alheia. Olham para aquilo como se estivessem presenciando a metamorfose do lobisomem de Joanópolis. Quando alguém parece estar contente (e está), nossa primeira reação é nos compadecermos pela ingenuidade da criatura sorridente, como se estupidez fosse premissa pra felicidade, e gentileza, atributo de lobotomizados ou doentes mentais. Nos é tão incutido o conceito de que os deprimidos, românticos incompreendidos, é que são geniais (toda aquela profundidade de sentimentos, cenho franzido, etc. e tal) que tendemos a encarar pessoas alegres como serezinhos sem sal, agüinha morna que nem chá dá pra fazer... Sai de mim! Se for assim, o Prozac será o responsável pela não-existência de grandes artistas pelo resto das eras. E eu me alegrarei de ser absolutamente medíocre e saltitante.
Não vejo nada errado em nunca estarmos satisfeitos, em desejarmos (há muitos anos alguém me disse que desejos são como cavalos: não são eles que decidem para onde vamos, mas com eles vamos mais rápido). O problema reside em ficarmos nos culpando por nunca estarmos completamente felizes ou acharmos poético arrastar as meias pela casa. O fato é que "algo sempre nos falta - o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Para seu próprio bem, guarde esse recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo" (Caio Fernando Abreu). Daí, sim, poderemos ser felizes. No início, quando der. E um dia, quem sabe, a maior parte do tempo.
Garfield é meu rei!
Gatos são divinos. E bem superiores a nós.Amo gatos. Amo suas vibrissas, que, quando criança, cortava pensando estar fazendo a barba do bicho. Suas unhas, que já me retalharam de cima a baixo (nunca deixei de pegar um sequer no colo, mesmo os ariscos ou sarnentos). Amo os dentes afiados. O andar deliciosamente rebolante (cresci tentando imitá-los e hoje rebolo tanto que parece que vou desconjuntar). Amo a maneira como se lavam, o modo como dormem, encolhidos. Os grandes olhos amarelos. Mas o que mais amo é o que muita gente odeia: a personalidade.
Eles não precisam de você, ou de mim, pra dar comida, arrumar uma gata gostosa ou se distrair. Sabem muito bem viver sozinhos, mas oferecem o prazer de sua companhia. Se estivermos à altura, é claro. Gatos só se deixam "criar" por pessoas pelas quais têm o mínimo de respeito (você costuma ver mendigos ou bêbados com gatos de estimação?). Independentes.
Eles nos olham como se fôssemos completos imbecis - que somos - quando balbuciamos alguma estupidez do tipo "Xaninho, vem com a mami": ora, já que vamos abrir o bocão, que seja para algo que preste. Ou os deixemos dormir em paz, que o sono é sagrado, meu amigo. Cínicos.
"Amo no gato a suprema indiferença e a distinção com a qual ele passa dos salões aos telhados." Elegantes. Pouco importa se moram num lixão ou numa almofada fofa, os gatos satisfazem-se com o que são e não precisam ir ao pet shop colocar lacinho e perfume pra serem aceitos. Não admitem humilhação: que gostem deles do jeito como são ou os esqueçam, porque pra eles tanto faz.
Charmosos. Nunca se vêem gatos transando, muito menos atracados no meio da rua, de bando. São amantes noturnos, discretos. O máximo de participação que nós temos no ritual é auditiva - ou líquida, quando os mais babacas jogam águam pra apartar. E, mesmo aparecendo sem um pedaço da orelha no dia seguinte, aquele olhar sacana vale a noite de sono perdida com a gritaria. É impossível se zangar com um gato.
Eles não fazem festa quando chegamos em casa, não babam com o linguão pra fora ou rolam pelo chão, mas sabem direitinho quando estamos tristes. Daí chegam, como quem não quer nada, sobem no nosso colo, ronronam (ah, como adoro esse barulhinho!), dormem um pouco e vão embora. Não são disponíveis nem estão ao alcance da mão todo o tempo, é certo, mas quando um gato está com você pode ter certeza de que ele não gostaria de estar em mais nenhum outro lugar. E nem faz aquilo por hábito ou obrigação. Diferentemente dos cães, gatos não querem ter um dono, e sim compartilhar bons momentos. Honestos.
Conviver com eles requer maturidade. Não são traiçoeiros, são livres. Nunca bajulam. São autênticos, por isso são difíceis. É muito mais fácil lidar com mentiras gentis, babação de ovo, puxação de saco, não é? E agora não me refiro só a felinos...
Gatos são muito parecidos com os humanos, por isso tanta gente os odeia: sabemos tão pouco lidar com eles como conosco mesmos. Parecidos, mas melhores: não mentem, não têm hierarquia, não fingem gostar de crianças, não sorriem quando na verdade querem te estralhaçar. São rancorosos (experimente maltratar um deles e, inadvertidamente, cruzar com ele de novo), preguiçosos, sedutores, imprevisíveis. Enigmáticos, interessantes, sagrados.
Defeitos e virtudes no ponto certo.
Gatos seriam homens perfeitos.
Não faça o que eu mando
Tenha coragem de fazer o que quer.Livre-arbítrio. Estou para conhecer algo que seja mais importante que isso. Alegria, tranqüilidade e felicidade são ótimas companheiras, mas se resumem a um amontoado de sensações fugazes se não forem permeadas pelo livre-arbítrio - nenhuma imposição externa dura muito, sequer ceder a elas surte algo de positivo. Por mais que tentem nos dissuadir da idéia, a verdade é que fazemos de nossas vidas o que queremos e não o que é "certo", porque "certo" não existe.
Muitas vezes, diante de uma decisão, me pego preocupada em não magoar ninguém, em ser justa. O que geralmente acontece quando você ouve "A última coisa que eu quero no mundo é te magoar"? Toma uma bem dada, provavelmente. É isso que ocorre quando violentamos nossa natureza e agimos baseados no padrão moral imposto pelos outros, quando tentamos ser corretos: a longo ou curto prazo, magoamos todo mundo. A preocupação em ser legal perante os olhos alheios nos faz cometer mais sacanagens do que a vontade assumida de agir como um grande f.d.p.: enquanto a segunda é explícita, a primeira vem fantasiada de boas intenções, de preocupação solidária. Mas nem o maior dos nossos esforços logra o que realmente se passa em nós; o inconsciente nos trai quando menos esperamos: numa frase áspera, numa olhada torta. E então todo o esforço em construir (e acreditar) uma imagem benévola vai para o ralo, e propagamos nosso desagrado em progressão geométrica - nada pior que pessoas mal comidas, falsos moralistas e covardes.
Seria tudo mais simples se parássemos de ser maniqueístas e assumíssemos nossa humanidade, tomássemos consciência de que quem cospe para cima sempre acaba catarrado na testa. Não confio em pessoas boazinhas ou más demais porque já vi beatas que, fora da igreja, julgam a vida do vizinho; políticos corruptos que dão dinheiro para caridade. O mundo não está dividido em humanos vis e angelicais, em vagabundas e garotas de família, em Judas e Jesus. Se hoje você ajuda uma velhinha a atravessar a rua, amanhã xinga seu vizinho de veado. Faz parte de nós, simples assim. O que fazer com isso é outra história...
Posso ser, para alguns (e para mim, vez por outra), moralmente indeterminada, ter uma conduta dúbia, pregar o amor e trair. Dane-se. Só eu sei como sou, pelo que passo, o que me move. Se algum ato meu magoar alguém? Pena. Antes isso do que me fazer de idiota fingindo ser bacana e me remoer de raiva enquanto sorrio. Se algum ato meu magoar alguém e eu ficar mal por isso? Então saberei como não devo agir da próxima vez. Só quem erra compreende o acerto.
"A vida é cair sete vezes e levantar oito." O ditado é chinês e, como tudo do Oriente, parece meio babaca à primeira vista (assim como comer arroz empapado, entoar mantras e honrar o mestre), mas não é. Foi assim que aprendi que preciso ser - antes de qualquer coisa - verdadeira comigo. Preciso bancar a minha felicidade mesmo que ela passe por territórios estranhos aos outros, mesmo que eles me vejam deturpada por todas as suas projeções, mesmo que eu ganhe rótulos desagradáveis, mesmo que eu sofra ou caia. Não importa, porque, por mais constrangedor e desagradável que isso seja, já aprendi a levantar.
Surpreeeesa!
Por que odiamos tanto quando as coisas não acontecem como o esperado?Não se explica por que você odeia beterraba ou não consegue ser simpático num primeiro encontro. Explica-se a relação entre o aumento do dólar e a crise da Argentina, mas não por que você ama alguém. Ou odeia, irrita-se, quer estar próximo. E aí você fica perdido. No exato momento em que se percebe inapto para racionalizar, o chão se abre. A boca seca.
Seus quatrocentos anos de estudo não servem para nada.
Sua mente embaça como espelho de banheiro.
Você fica nervoso...
E então nota que só aprendeu a lidar com o programado: pagar contas, ganhar dinheiro, jogar bola com os amigos, beber no mesmo bar com as mesmas pessoas no mesmo dia da semana - e encontra no conhecido sua zona de conforto. Na rotina, sua segurança.
"Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação."
Você não se enquadra na descrição? Ah! Adora aventura e planeja viajar pro Camboja de bicicleta? Você planeja... Assim como planeja em qual cargo estará daqui a um ano, a cantada que passará na garçonete gostosa ou qual desculpa dará para não almoçar na casa da sua mãe? Sei. Mas, se por um acaso qualquer você fosse demitido, a garçonete passasse a mão na sua bunda e sua mãe não te convidasse para almoçar, o que aconteceria?
Você ficaria perdido. Desorientado. De repente, estaria jogado num território novo e perceberia que sabe lidar com injeção eletrônica, fibra óptica, computador e avião, mas ignora completamente o que se passa em você. Notaria que dedicou a vida a compreender e explicar o que acontece ao seu lado e ignorou solenemente aquilo que não se coloca numa tabela do Excel, que nenhum gráfico mostra.
Notaria que não prestou a mínima atenção em si porque estava ocupado demais verificando seu extrato. Agora você tem dinheiro na conta e paga terapeuta, massagista, professor de ioga... e continua vagamente triste.
Infelizmente muitos nunca se deparam com um momento de auto-análise forçada: trabalham, bebem, transam e vão ao cinema. São onipotentes deuses de seus pálidos microcosmos, mas morrem carregando a sensação de vazio, a vaga tristeza. Fazem um esforço danado para não se perderem numa paixão, não confiarem demais nos outros, não falarem muito, manterem o controle. E conseguem. Conseguem não viver - comem chocolate e não fecham os olhos para catalisar o sabor do creme se derretendo na língua. Casam-se e compartilham o cotidiano, não a vida. Lêem centenas de livros e não são tocados por nenhum. Passam pela vida. E só.
"Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo?"
Não se explica. Nem é preciso. Basta nos convencermos de que não precisamos inferir intelectualmente cada detalhe da vida - nunca entenderemos por que o olhar de sicrana nos mata ou o andar de beltrana nos dá tesão. E será que precisamos?
"Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento." Clarice Lispector não teve uma vida lá muito feliz, por isso se pode aprender tanto com ela. Aprender a não repetir os mesmo erros. E, acima de tudo, aprender que cada um "terá que correr o sagrado risco do acaso. E substituir o destino pela probabilidade", porque o que torna a vida interessante é o fato de não a controlarmos. Não existe nada mais maravilhoso do que poder ser surpreendido.
Será que ele é?
Só o tempo, a ausência e as atitudes dirão.Sou de poucos amigos. Bem poucos. Nunca fui de esperar dezenas de telefonemas sábado à noite, não faço o estilo "candidato a vereador" quando chego em festas. Odeio tapinhas nas costas e beijos dados no ar. Minha mãe sempre diz que "amigos de verdade podem ser contados nos dedos de uma só mão - e ainda sobra dedo", e esta é uma das poucas verdades que carrego comigo. Não acredito que seja possível ter um campo de futebol lotado de amigos porque amizade envolve cumplicidade, amor, intimidade, preocupação - e, ao menos que o problema seja comigo, não vejo como oferecer dedicação a 10 000 pessoas, nem mesmo a 100, sem demagogice.
Cada um de nós é rodeado por muita gente, igualmente importante para nossa sobrevivência social (ex-namoradas, parceiros de truco, colegas de trabalho, galera da balada), mas que não pode - e não deve - ser chamada de amigos. Não só por ser incorreto, mas principalmente por fazer mal à saúde: esperar dos outros atitudes que eles não terão não é das coisas mais agradáveis da vida (e também seria estúpido exigir que cada cidadão que topasse conosco na rua se importasse profundamente com nosso estado emocional). Mas será que sabemos mesmo distinguir gregos de troianos? Acho que não. Infelizmente. E então ficamos fechados e ranzinzas, é bom dizer, por nossa própria culpa. Por nossa ingenuidade infantil.
Já aprendi algumas coisas importantes: não se deve ir a restaurante japonês de blusa branca; é melhor estar entre dois loucos que perto de um imbecil; se você não sabe para onde está indo, é provável que chegue lá; e a distância é muito mais significativa que a presença diária. Só se descobrem os amigos quando o elo material que os mantinha juntos vai pro brejo: a faculdade acaba, o time de futebol se dissolve, a empresa fecha - será que daí, sem a confortável falta de esforço (lembre que amanhã não estaremos todos aqui novamente), os cumprimentos entusiasmados e as boas-vindas efusivas a amizade sobrevive? Na minha experiência, não.
Pseudo-amigos arrumam todo o tipo de desculpas para não se encontrarem. Ainda bem, porque assim nos poupam de sua presença fajuta...
Eu não sei como você definiria amizade. E também não defino, não tenho essa pretensão. Apenas sei que meus amigos sentem quando estou triste só pelo tom da minha voz. E eu sei quando algo os aflige pelo seu modo de olhar. E prefiro levá-los pra comer pão de queijo (o Prozac mineiro) a passar um sermão insosso e inútil.
Por mais que odeie ser acordada no tranco, não me importo em atender um telefonema no meio da noite se isso servir para amenizar a aflição de um amigo.
Participamos de nossas vidas com a única intenção de que isso seja bom, construtivo e agradável.
Não preciso ir a festas, jantares, coquetéis para encontrá-los: é só pegar o telefone. E nem preciso dizer quem é. E, se a culpa do choro ou a causa da gargalhada sacana for minha, fico grata por levar uma bronca sinceramente preocupada - nada pior que pasteurizados "tudo vai ficar bem, querida", porque nem tudo vai ficar (mas o medo diminui quando sabemos que temos com quem contar caso isso aconteça).
Nos sentimos à vontade numa ópera ou num passeio ao Capão Redondo.
Ficamos envergonhados quando mentimos ao outro - porque não há necessidade de fazê-lo. Não é pelos sucessos e vitórias que nos gostamos. Ou, pelo menos, não só por eles.
Não precisamos impressionar com frases brilhantes porque assumimos nossa humanidade. E as cagadas que fazemos - por isso também rimos delas e de nós mesmos. Afinal, nada sobrevive sem bom humor.
Amigos me fazem mais bem que uma dúzia de injeções na veia.
Vontade de sofrer
Quem pode negar que já passou por isso?Hora propícia para fazermos as maiores asneiras da vida: o momento em que o desânimo perante a confusão do novo suplanta a vontade de sair da fossa - reencontrar ex-namorado(a) enquanto o sentimento ainda não deu o último estertor é cagada na certa.
Relacionamentos naufragados são como domingos de chuva: sabemos que não servem pra nada, mas insistimos que podem ser úteis pra alguma coisa. E aí, depois de reembarcar na canoa furada, arrumamos mais argumentos para sustentar as lamentações sobre o quão infelizes somos nós e abjetos, os outros. Mas esquecemos que fomos (re)conquistados porque teimamos em ter fé em coisas que não dependem de fé, acreditamos que o que era ruim até um segundo atrás poderia ter se tornado perfeito e reluzente. Fomos seduzidos pelo que quisemos ver e não pelo que estava, de fato, na nossa frente; nos agoniamos por não ter respostas pras nossas dúvidas e projetamos todas as soluções na "presença curadora" do outro.
Mas elas não vêm. E a mágoa volta. Dobrada. Chorosos, putos da vida, pedimos ao céu uma explicação razoável para o bis do sofrimento. Tentamos nos consolar em ombros de amigos, livros de auto-ajuda, sexo fácil, mas a explicação teima em não vir. Não adianta procurar debaixo do sofá, porque ela está estampada na sua testa: você sofre porque é uma besta.
A experiência vivida com aquela pessoa "magnânima" nos deu avisos suficientes de que a relação, se fosse um sapato, não era do tamanho do nosso pé: ou vai nos dar calo (de novo) ou cair no meio da rua. Vimos com nossos próprios olhos todos os problemas; os gritos das brigas arranharam a garganta e mesmo assim lá estamos nós insistindo em dar murro em ponta de faca. Tentando desesperadamente acreditar que dois monólogos podem fazer um diálogo - feliz e agradável, além de tudo. Mas a única coisa que conseguimos são mais calos, ainda mais doídos. O sapo é sapo, e só, enterre as ilusões. Não estou dizendo que existam pessoas ruins. De forma alguma. Apenas ruins pra você.
O fato é que, por comodismo e paúra, nos acostumamos até com a infelicidade de um relacionamento capenga. O temor diante do novo nos priva da grande alegria de descobrir que o mundo é maior que a nossa dor-de-cotovelo, que o cheiro ou os traços do(a) ex. Esse temor da rejeição, da exposição, da falta de controle perante o que não conhecemos é o que de mais castrador podemos fazer a nós mesmos. "Tá ruim, mas todo mundo tem problemas, não é?", como se isso fosse desculpa. Quer dizer que você vai comer cocô só porque 1 bilhão de moscas comem? Se os outros são sentimentalmente miseráveis, azar o deles! Não cabe a você solucionar a vida alheia.
Ansiar por um momento que nunca se repetirá é apenas o outro lado de ansiar por um momento que passou pra sempre. O passado só é lindo porque já foi. Não adianta tentar reproduzir as cores dele no presente porque o tom nunca será o mesmo. Nem você. Nem o outro. Nem o que os cerca. Esse presente (re)fantasiado, por melhor que seja, nunca se igualará às suas expectativas ou lembranças. E acabará, fatalmente, em decepção.
Quer saber? Levante a âncora. Porque quem anda olhando pra trás acaba tropeçando - e, pior, perdendo toda a paisagem.
A última carta
O que dizer para aquela pessoa que tanto nos magoou?"Fulano,
A intenção era magoá-lo. E nem ousarei pedir desculpas porque, além de não querer, elas soariam ridículas e ainda mais ofensivas do que minhas ações supostamente infantis.
Você mereceu. Essa é a verdade. Existe um momento em que tudo de agradável que fizemos um ao outro desaparece, e em seu lugar surge um ressentimento aniquilador que traga o passado distante e só mantém vivas as cenas finais. Aquelas cenas finais.
Tudo já passou, é certo. Mas, assim como uma farta refeição mexicana, demorará pra ser digerido. Enquanto o processo se completa, sua imagem virá à minha mente como o gosto azedo de guacamole subindo pela garganta. Totalmente indigesto.
Seria lindo dizer 'Espero que você seja feliz', mas não sei se é isso que espero ou se é seu arrependimento seguido de um indisfarçável rastejar. Nunca omiti que o altruísmo não era uma das minhas qualidades.
Ao contrário de você, confesso meu erro em prometer sinceridade constante e não cumprir. Escondi minha raiva pelas suas derrapadas, falta de argumentos, omissões antes eventuais e então perenes. Não disse o que me aborrecia com medo de desandar as coisas entre nós, sem notar que já não existia 'entre nós', só entre mim e alguém que se esqueceu de apagar a luz ao sair para deixar evidente o abandono do recinto.
Antes que me esqueça: a maior vitória disso tudo não foi triturá-lo. Foi descobrir que não me basta viver ao lado de alguém emocionalmente surdo e cego, nutrindo-me de expectativas malogradas. Como li em algum lugar: 'Eu não chorei por você. Chorei por uma idéia que fracassava. Por uma idéia que, num minuto, parecia ter futuro'.
Mas odeio persistir nos meus erros. Se te neguei a realização de uma promessa, agora a faço valer: me esqueci de entregar este bilhete a você no último dia em que nos vimos, mas não poderia deixar de entregá-lo para sempre.
Uma das sensações mais prazerosas da existência é ver chorando alguém que nos fez sofrer.
Quanto maior foi o amor, tanto maior será a alegria mórbida de observar o outro a debater-se com sua tristeza, como um peixe pendurado pelo rabo para fora do aquário - e bem pertinho da água. Parei de ignorar ou fingir que meu sadismo não existe: todos somos maus quando temos oportunidade (e quanto menos temerosa do pecado for nossa formação). Não é porque um espasmo de satisfação percorre o meu corpo perante as suas lágrimas que me torno desprezível - ele ocorre tão naturalmente quanto um largo sorriso quando observo a vitória de quem amo.
Minha mão, sempre pronta pra ajudar, foi rejeitada como um pedaço de pão velho. Agora, dá tapinhas nas suas costas. E bate palmas perante o espetáculo, tão confrangedor quanto divertido.
Certamente você não é tão ruim. É só alguém que pisou na bola, como acontece com todos nós - mas nenhum dos 'todos nós' dividia a vida comigo. Não importa se tenho razão ou se meus motivos são fortes o suficiente pra dizer o que digo. Aprendi algo importante desde que nos separamos: fome e dor não se medem - cada um tem o seu limite. Passei muito tempo com o meu à beira do insuportável (por burrice minha, óbvio).
Se te desprezo tanto assim, por que perdi tempo escrevendo esta carta? Porque sei que ela conseguirá algo que eu já não conseguia e que me massacrava: surtir algum efeito em você."
E lance o primeiro comentário moralista quem nunca (na falta de coragem de fazer) sentiu vontade de dizer algo parecido...
A pergunta inevitável
O que dizer quando o encanto acaba?A paixão nos contamina com uma incurável visão seletiva e nos torna patéticos e miseravelmente felizes. Mas, como toda doença, um dia acaba. Ou mata.
Ao acordarmos entre os sobreviventes, nos rastejamos pela autocomiseração rumo à saída (desconhecida) e, talvez, alguma alegria - que, quando vem, insiste em ser tão sutil como o gosto de uma alface. Cansados, só conseguimos mais motivos para persistir no flagelo e lastimar a súbita ruína da felicidade eterna.
Contrariando o fim do mundo pessoal, e sem notarmos, o tempo vai deixando essas sensações mais e mais dispersas.
E, num dia qualquer, desaparecem.
Ficamos curados.
Tocamos a vida, rimos do que passamos e prometemos não mais nos apaixonar. A promessa não é cumprida, e a sensação de ser atropelado por um Scania se repete até que tenhamos o domínio sobre nossas expectativas ou que alguém faça o favor de nos dizer para deixarmos de lado a crença infantilóide de que a felicidade será entregue na porta de nossa casa por alguém lindo, inteligente, bem-humorado e charmoso - ele(a) nunca virá porque não existe.
Numa noite ou dia qualquer, surgido do nada, no meio da rua, no elevador, reencontramos sem querer (e com algum sobressalto) quem nos causou o inesquecível desprazer. E, pela primeira vez, sentimos um desapontamento, meio inexplicável, mas bem nítido. Durante os cinco segundos que nos separam do cumprimento, uma tonelada de sensações chegam juntas e misturadas. Até que, de repente, olhamos para alguém muito diferente de quem nos encantou. Um completo estranho. Pela primeira vez, enxergamos essa pessoa despida da perfeição com a qual a envolvemos. Despida das nossas quase arquetípicas aspirações românticas.
Então o que era quase divino se torna frustrantemente humano. E aí, com mal-estar e um tanto de rejeição à idéia, compreendemos que a paixão é o mais narcisista dos sentimentos: nos apaixonamos pelo que queríamos que alguém tivesse, fosse, agisse, pensasse. Nos arrebatamos por nossos sonhos projetados sobre outra pessoa - e nada pode ser mais humilhante que descobrir nossa própria fraude (a não ser perceber que tudo poderia ter sido diferente se fôssemos menos egocêntricos).
Não sabemos como agir. É muito repentina a mudança de visão e a reação adequada ainda não se formulou. Vendo a pessoa se aproximar, ao mesmo tempo que tentamos descobrir o que fazer, notamos pequenos detalhes até então invisíveis: o sorriso insistente, a sobrancelha direita ligeiramente mais baixa que a esquerda. Os sapatos velhos que odiávamos mas habitavam no setor "excentricidades" agora mudam-se pro "relaxo". E vem o abraço. Já não é tão forte. Já não é tão macio. É um abraço de festa, impessoal. Nos vem uma certa aflição com o toque daquele corpo que já não reflete nosso desejo.
Onde foram parar o brilho, a beleza tão particular, a presença envolvente?
Eles estão onde sempre estiveram, só que agora esperam um novo corpo pra elegerem como abrigo. Ou um enterro oficial.
Então, passados os poucos segundos do contato, olhamos, sorrimos e lançamos um "Oi!", a única coisa que nos vem à mente. Mas o que pensamos sinceramente, porém nunca será dito, é: "Como eu pude?"
O homem ideal
Ele existe, sim. E, graças a Deus, está muito longe da perfeição.O homem ideal me faz rir mas nunca usa o riso contra mim. Tem a rara habilidade de saber ouvir e só diz o que é necessário, bom ou a dura e intransponível realidade.
Compreende a diferença entre estar presente e fazer companhia.
Não é prolixo, nem tenta impressionar. Não precisa entender de vinho, charutos ou golfe; precisa ser autêntico e admitir que não entende de vinho, charutos nem de golfe (e eventualmente confessar que gosta mesmo é de pinga). Ele não exige a todo instante meu lado risonho porque sabe, como sabe de tantas outras coisas não ditas em sentenças ou discursos, que os dias negros fazem parte de mim.
Nota as sutis alterações de humor pelo tom da minha voz e, antes de prejulgar as razões, se predispõe a fazer cafuné ou, sensato, cala-se ao meu lado olhando para a TV. E não exige explicações porque possui uma calma sabedoria que me impele em sua direção: dividir minhas angústias e anseios com este homem é tão acolhedor quanto deitar na grama sob o sol de outono. O homem ideal me dá bronca quando abuso da minha independência ou como chocolate demais e depois reclamo do peso. Ele compra sorvete light e evita discussões posteriores. Compreende que preciso da sensação indescritivelmente libertadora de sumir por algumas horas e, mesmo não concordando com ela, não me interroga como um oficial do DOI-Codi quando piso em casa, levemente para não o acordar, às 2 da manhã.
O homem ideal canta. Não precisa ser afinado, mas sussurra (seja ao telefone ou ao vivo) canções que, num dia qualquer, mencionei gostar. Pode saber dançar. E, se não souber, que mantenha a dignidade e fique sentadinho me observando. Também bebe. Meio pinguço, é daqueles que ficam charmosos de matar com um copo de uísque nas mãos. É deliciosamente sacana três doses acima do normal. Enterra os bons modos e fecha abruptamente a porta do quarto, sem tempo para que eu responda à pergunta nem sequer formulada. Adormece aconchegado a mim, mas não suporta ficar agarrado durante toda a noite.
E também curte cozinhar. Diverte-se tanto numa loja de condimentos como diante de uma prateleira de CDs. Não me expulsa da cozinha mesmo que eu esteja atrapalhando. Não me dá fusilli na boca mas o serve no meu prato, com pouco queijo e muito molho.
O homem ideal está sempre disposto a me ouvir, mesmo que seja nos minutos desagendados à força durante o dia cheio, e não usa trabalho nem cansaço como desculpa para suas eventuais faltas; as assume e, até, se desculpa. Não se esquiva de discutir os problemas que não se solucionam com notas de 100. Não considera fraqueza dizer que me ama. Pede ajuda quando sente que o peso colocado sobre seus ombros extrapolou sua força. E chora. Não faz promessas porque sabe que nem sempre é possível cumpri-las. Vive regido por sua consciência e, impulsivo, assassina a etiqueta e comete atos passionais. Então faz besteiras, erra, engana-se. E nem por isso deixa de ser maravilhoso - apenas segue sendo magnífica e tropegamente humano.
O homem ideal é imperfeito, numa imperfeição que combina exatamente com a minha.
Correndo atrás do rabo
Procurar a felicidade eterna é a melhor maneira de ser infeliz.Não temos obrigação de ser felizes nem fomos colocados no mundo para alegrar os outros.
Nascemos para ser nós mesmos - a tarefa mais difícil de todas.
Nos privamos do direito à tristeza. Ao menor sinal de sua presença, nos entupimos de antidepressivos, como se momentos de introspecção fossem doença e o padrão normal fosse vivermos imersos numa comédia romântica infindável. Pior: fosse essa capacidade a medida de nosso êxito. Mas o êxito só pode ser medido pela aptidão de abraçar nossas idiossincrasias, de lidar com o que não gostamos ou entendemos em nós - nosso maior êxito é ter coragem de assumir quem somos e deixar de imitar condutas incutidas e socialmente aceitáveis.
Homens choram, sim.
Mulheres, mesmo nos dias de hoje, podem ser meigas.
Estar sempre preparado para o ataque é tarefa de guepardos, não nossa.
Alegria incessante é função de apresentadores de TV.
Precisamos, com urgência, relaxar e aceitar que "Um dia de chuva é tão belo quanto um dia de sol/ Ambos existem; cada um como é" (Alberto Caeiro). Só assim respiraremos tranqüilos, sem nos sentirmos fracassados, diante de uma melancolia corriqueira. Para parar de ter medo do bicho-papão que mora embaixo da cama, é preciso olhar para debaixo dela: medos só perdem a força quando são firmemente encarados.
Cerceamos a vida de maneira letal ao exigir extrair prazer de tudo o que nos cerca: a comida deve ser orgásmica; o cinema, brilhante; o amor, estelar. Incutimos até num pedaço de bolo a obrigação de nos inundar de prazer. E essa busca demente da felicidade se torna demoníaca porque traz consigo a massacrante sensação de derrota - nada é capaz de nos suprir de alegria, por mais esforço que façamos, porque precisamos do desalento eventual para sermos completos. Só nos contos de fadas aparecerá o herói, a mítica figura salvadora, que decretará: "Todos serão felizes para sempre", e a dor sumirá. Na vida real, somos completamente responsáveis pelo que fazemos conosco, ninguém executará a tarefa por nós.
Não conseguimos - por mais que acumulemos itens, pessoas, realizações e prêmios - sorrisos perenes e autênticos. E nos sentimos (às vezes, vagamente; outras, arrasadoramente) perdedores, fracos, largados. E então exigimos a felicidade. Clamamos por ela. Nos entorpecemos tencionando atingir o êxtase perfeito. Bebemos. Cheiramos. Usamos tudo o que possa alterar nosso ânimo, que ofereça uma breve promessa do paraíso, dilua a angústia. Qualquer coisa que nos deixe felizes até o dia seguinte, de onde recomeçaremos o ciclo, ignorando os motivos desse vazio incômodo que clama para que vejamos a nós mesmos.
A alegria não virá dentro das sacolas de compras, no porta-luvas do carrão novo, nas coxas durinhas da conquista da semana: essas coisas são nossa dose diária (e até necessária) de anestesia que adia encararmos o fato mais banal e amedrontador da vida: não existe bálsamo milagroso para nossa solidão intrínseca, e ela faz parte de nós tanto quanto a vontade de rir solarmente - ignorá-la é fechar a porta para tudo o que ela pode ensinar.
Ignorá-la é enterrar metade de você.
Só os idiotas são felizes
Nada mais libertador do que rir de si mesmoIdiotice é vital para a felicidade.
Gente chata essa que quer ser séria, profunda, visceral. Putz, coisa pentelha.
A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado do Schopenhauer? Deixe a pungência para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores. No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota. Ria dos próprios defeitos, tire sarro de suas inabilidades. Ignore o que o boçal do seu chefe proferiu. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.
Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, objetivos claramente traçados mas não consegue rir quando tropeça? Que sabe resolver uma crise familiar mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Sim, porque é bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar? Em suma: desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. A realidade já é dura; piora se for densa. Dura e densa, ruim. Brincar, legal. Entendeu?
Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não se descontrolar, não demonstrar o que sente. É muito não. Dá pra ser feliz com tanto não? Pagar as contas, ser bem-sucedido, amar, ter filhos - tarefa brava. Piora, muito, com o peso de todos aqueles nãos. Tenha fé em uma coisa: dá certo ser adulto e idiota. Aliás, tudo fica bem mais fácil ser for regado a idiotice, bom humor. Manuel Bandeira foi um grande homem e um grande poeta. Disse certa vez: "E por que essa condenação da piada, como se a vida fosse só feita de momentos graves ou só nesses houvesse teor poético?" Estava certo. Adultos podem (e devem) contar piadas, ir ao fliperama, beliscar a bunda da mulher, sair pelados pela cozinha. Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "não" aceitável.
Teste a teoria. Uma semaninha, pra começar. Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que são: passageiras. A briga, a dívida, a dor, a raiva, tudinho vai passar, então pra que tanta gravidade? Já fez tudo o que podia para resolver o problema? Parou, chorou, pediu arrego? Ótimo, hora da idiotice: entre na Internet, jogue pebolim, coma um churrasco grego. Tá numas de empinar pipa no sábado? Vá. Quer conversar com sua namorada imitando o Pato Donald mas acha muito boçal? E é, mas e daí? Você realmente acha que ela vai gostar menos de você por isso? Ela não vai, tenha certeza. Só vai gostar mais, porque é delicioso estarmos com quem sorri e ri de si mesmo.
Eu fico chateada por não ser tão idiota quanto gostaria; tenho uma mania horrível de, sem querer, recair na seriedade. Então o mundo fica cinza e cada lágrima ganha o peso de uma bigorna. Nessas horas não preciso de cenhos franzidos de preocupação. Nessas horas tudo de que preciso é uma bela, grande e impagável idiotice. Como sair pra jogar paintball - ou, melhor ainda, me olhar fixamente no espelho até notar como fico feia com os olhos vermelhos e o nariz escorrendo. Como fico ridícula quando esqueço que tudo passa.
A grande maldição
"Seja ciumento" é a pior praga que pode ser rogada sobre você.Você provoca. Atiça só pra ver se a ação condiz com o meu discurso. Daí se assusta: largo o copo de vinho na metade, levanto da mesa, chego bem pertinho do rosto da criatura que se interpôs entre sua atenção e minha inteligência. Próxima daquele ser desconhecido e instantaneamente odiado. Ela que, mesmo sem nome, desviou seu olhar de mim. Então apóio a mão esquerda na mesa, a direita na cintura e digo, bem arrogante: "Se olhar mais, vai ter que ir lá e tentar pegar. Caso contrário, é melhor você mudar de lugar. Atrás daquela pilastra, de preferência".
O ciúme me faz perder o bom senso, a compostura e a educação que me resta. Me transformo repentinamente na Maria Padilha, mesmo sem o sotaque, a garrafa de cachaça na mão e o cigarro caído no canto da boca. Tenho ganas de acabar com o mundo, só para me assegurar de que você perceba o quanto odiei seu pequeno flerte e a grande dor que ele me causou: a dor de me sentir excluída, nem que por instantes, da sua vida. Notar que outra pessoa pode tomar aquele lugar que é só meu. Desejo que seja só meu (e vivo nessa intenção).
Assim que notei seus olhos pousados sobre outra mulher, um curta-metragem B foi projetado dentro do meu cérebro. Aquele sorrisinho de lado que tão bem conheço não era pra mim; não daria pra você sorrir assim me ouvindo contar sobre o preço da geladeira, por mais graciosa que eu seja. Seus pensamentos ficaram, repentinamente, cheios de outra pessoa, outro corpo, outro gemido, outra pele. Cheios de novas possibilidades. Fui jogada para a periferia da sua vida. E, então, largo o copo de vinho pela metade, levanto da mesa...
Nada é mais terrível que imaginar o amado entregando-se à exploração de outro corpo, outra vida. Nada, nem a fome, nem o frio, nem a pobreza - tudo isso, todos eles, passam, seja com o supressão da necessidade ou com a morte. Mas suas mãos correndo por outras curvas, sua boca sugando outra saliva me jogam imediatamente no desespero, no atemporal desespero: ali, nada posso. Não consigo parar de imaginar nem continuar imaginando. Nessa hora não me cabe perguntar se quero ou não mergulhar nesses pensamentos: já fui atirada ao mar.
...Atrás daquela pilastra, de preferência". Viro de costas e volto em direção ao meu lugar. Você fica perplexo. A piranha, boquiaberta, sem graça, quase se enfiando debaixo da mesa. Você, baixinho, me xinga, me chama de louca. Eu não me importo: da próxima vez, seja discreto. Ou não dê esse sorriso. Quanto ao que não vejo, tudo bem. Quanto ao que não sei, tudo bem. Mas que eles continuem no terreno do não sei. Te falo: "Sou irracionalmente desconfiada e passional. Não me dê motivos, por favor, para que eu me arrependa de amar você. Porque, quando me arrepender de te amar, já não vou ter mais do que me arrepender. E aí, querido, vou ser capaz de qualquer coisa".
Ao imaginar tudo o que pode nem ter acontecido, nem vir a acontecer, mas já é completamente real em mim, me sinto diminuída, excluída, banal. A raiva que brota vem tanto dessas sensações perniciosas quanto do medo de perder quem se ama. O medo de não saber se se é suficiente para lutar contra o inimigo (sempre mais armado nos delírios do que na realidade). A tristeza de já não saber se se é suficiente. Tristeza e ódio misturados são uma bomba e tanto. Podem arrasar a noite. Podem arrasar a vida.
Quando o dique estoura
Finais não precisam ser horríveis. É suficiente serem tristes.Como termina um amor? Talvez não termine, somente mude para o terreno da amizade sem nos darmos conta. O carinho, o respeito, a vontade de dividir alegrias corriqueiras continuam a viver e nem sequer notamos que algo morreu. Não admitimos a possibilidade de o eterno não existir. Mas morreu algo quase imperceptível, que só notamos quando não está mais lá, entrelaçando as mãos.
Insultos e traições não são necessários para que o amor termine. Alguns, os mais rudes, clamam pela destruição total, precisam do insuportável para divisar aquilo que um dia foi claro e luminoso transformou-se num lodaçal onde ambos se afogam, puxados pelo peso do rancor, pela negativa em abandonar o navio, mesmo rodeados pelos destroços. Não é necessário exterminar tudo de belo para notar que as cores desbotaram e, apesar de ainda harmônicas, já não enchem os olhos de satisfação. A maior dor vem com a constatação de que só amor não basta - a tela que pintamos a quatro mãos pode continuar linda, mas foi, imperceptivelmente, sendo esvaziada de significados e se transformou em algo que observo, mas do qual, tristemente, não faço parte.
O espaço que o amor toma é muito grande; preenche tudo. No momento em que diminui (talvez não diminua, apenas sofra uma metamorfose: não acredito que o amor possa arrefecer, apenas se transforma em outra coisa, inominável) sentimos como se tivessem arrancado nosso fígado, nosso rim. Somos assolados pela convicção tão hesitante quanto lancinante de que não sobreviveremos à sensação de não termos mais porto, segurança, paz. A voz cálida ao telefone. Nos invade a certeza ainda mais cruel de que, depois dessa fissura, não poderemos levar isso adiante, não poderemos provocar mais dor nem infligi-la a nós mesmos. A certeza de que fomos lançados em alto-mar e já não nos cabe querer ou não - a realidade não precisa de nós.
Então vem o assombro, a sensação de trairmos o outro por já não conseguirmos ser parte de dois, pela estranha e urgente necessidade de sermos um, sozinhos, de nos vermos despejados da visão carinhosa e complacente. "Perdi algo que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se tivesse perdido um terceiro apoio que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Esse terceiro apoio eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Sei que só com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência do apoio me faz aflita e me assusta, era ele que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, sem querer precisar me procurar." (Clarice Lispector)
E será inútil esforçar-se para esquecer - tudo o que um dia se misturou carregará consigo partículas do outro. Talvez venha o arrependimento, o recomeço, as cores voltem a brilhar como antes - mas não se pode contar com isso. Não se pode contar com nada. O único caminho viável é viver e correr o sagrado risco do acaso. E substituir o destino pela probabilidade.
O único caminho é entregar-se à desorientação e ter fé, muita fé, de que ela nos leve a um lugar mais calmo, inabitado por nossa agonia e pelo medo de ficarmos sós.
A segundinha
Os descompassos e desperdícios de ser coadjuvante.A segundinha é como água: se molda. A qualquer horário, qualquer ambiente, qualquer humor. Possui também a rara habilidade de se encaixar na vida do homem que ama sem tomar o espaço útil destinado às tralhas dos filhos, ao cachorro, ao trabalho e, claro, à mulher.
Não tinha idéia de como viria a amá-lo. Se conseguisse vislumbrar o que passaria, jamais brincaria com aquele círculo de ouro no anelar esquerdo - para ela, a arma mais letal.
Morre de ciúmes quando imagina os dois juntos, tranqüilos, no sofá da sala que construíram para passar a vida. A prole brincando em volta, arrancando sorrisos, criando ainda mais intimidade. Se rói de ódio mas não reclama porque, quando entrou na história, já sabia quem era a protagonista. Mas segundinha que é segundinha sempre nutre a esperança de que a fulana vá parar em outra peça, com outros atores, e o deixe todo pra ela, numa sala sem o peso dos anos. Num sofá só deles.
Segundinha que se preze tem todos os telefones dele, inclusive o da casa, mas não liga em horários inoportunos. Nada de sábados à noite, almoços de domingo, nem quando o filhinho pega no sono. Tem ótimo semancol e, apesar de querer profundamente implodir aquele casamento, sabe que não é por aí o caminho que os levará a ficar juntos (não sabe nem se existe tal caminho). Uma das coisas que ele aprecia nela, entre tantas qualidades enumeradas, é esse bom senso que consome o fígado dela mais que talagada matinal de cachaça.
Ela o ama. Se alegra em descobrir seus defeitos, aprender a lidar com eles, não achá-los tão insuportáveis assim. O admira, ouve suas narrativas e é tão boba que fica feliz quando nota que os dois já têm algo pra chamar de "história", mesmo sendo escrita no rodapé, esmagada pelo corpo do texto do assunto principal. A segundinha fica infeliz por não poder andar de mãos dadas na rua, nem apresentá-lo aos seus amigos ou tomar chope na calçada do Supremo numa noite quente de quinta. Então ela segue sua rota, tentando manter o mínimo de sanidade.
Tenta abstrair o clichê da situação e assoviar. Relaxar. Conhece alguém interessante, corre por fora para não ser pega pelo cheiro do outro, o olhar, o corpo, que cismam em morder seu calcanhar. Às vezes até consegue enganar as lembranças, fugir rapidinho e mergulhar num paraíso temporário sem horas contadas, choros incontidos. Passa a ser ela mesma e estranha, se assusta ao ver um homem em sua cama sem a necessidade de sair correndo e, só então, relembra como isso é aconchegante. Como deseja alguém que durma com ela, acorde com ela - mas logo a realidade escancara a porta do quarto e deixa claro demais que ele é tudo o que ela poderia querer mas não quer. Simples assim. Odioso assim.
A história segue, ainda sem desfecho. Ela passa dias, meses, tentando não enxergá-lo em todos os homens que cruzam seu caminho. Uma das coisas que mais entristece a segundinha é poder, e não desejar, ser a primeira na vida de tantos outros. É odiar ser a segundinha na vida de quem é o primeiro. E, da forma mais intensa, o único.
Espelho meu
Quem dera se os outros fossem desimportantes...O pânico que acompanha os períodos de mudança bloqueia completamente a racionalidade. Não se diferencia o que realmente importa do que está lá somente para ocupar o vazio incômodo deixado pela retirada de quem nos mantinha aprumados. Fazemos besteira de baciada. Só se consegue olhar com certa imparcialidade para as próprias atitudes e covardias depois do retorno de um mínimo de calma. Quase sempre, atrelado a essa fase indelével e falsamente estável, vem o repulsivo arrependimento. E arrependimento é um sentimento duplamente estúpido: por trabalhar com uma matéria-prima morta (o passado) e por gerar um resultado danoso (autocomiseração e raiva). Nos debatemos entre pensamentos inconfessáveis: fiz o certo? Joguei a felicidade pela janela? Mais uma vez estraguei tudo? E, claro, a resposta não vem, porque não existe. Procuramos por objetividade no terreno dominado pelo passional. Mais uma inutilidade, fartas nessa época, para adicionar à lista.
A primeira coisa que sentimos claramente após o afastar da tempestade é como ficamos sozinhos. É duro ficar sozinho. Beira o insuportável, algumas vezes. Motivados meio pelo desespero, meio pelo pânico da falta de respostas, pegamos o telefone, o carro, o mouse e vamos ao encontro da voz confortadora, da presença balsâmica, de quem tanto nos acolheu e agora está fora de uma vida que era repleta dele. E qual a surpresa? Não fazemos mais a mínima diferença.
Somos efêmeros até mesmo para quem compartilhou nossos sonhos, dividiu contas, dormiu sobre nosso corpo. E exigimos, desejamos ser para sempre. Pode ser egoísta (quem nessas situações se preocupa com virtude?), mas é devastador assistir a quem amamos tocar a vida com maciez, como se nunca tivéssemos existido. Em nossa neurótica resistência aos fatos, reivindicamos, ao menos, um período de luto, um esboço de lágrima - quando isso não acontece, vem a sensação de sermos tão olvidáveis quanto capítulos da novela. Descartáveis como lápis de ponta quebrada. Poucos, insuficientes. Pior: substituíveis.
Temos a pretensão de importar, mas, se tudo passa, por que nós ficaríamos? Não é sem mágoa que percebemos que nem mesmo quem nos amou nos mantém por muito tempo - nossa retirada é necessária para que se possa recepcionar o novo. Raciocínio tão lógico quanto doído. Principalmente para o lado que não tem previsão de festa.
A necessidade de importar é visceral. Desculpem a citação, mas é válida. Disse Stendhal: "se não temos caráter sem os outros, então os outros devem ser um refletor habilidoso... ou então terminaremos deformados." De certo modo, só tomamos consciência de nós mesmos quando nos colocamos em contraponto com o outro - observamos as falhas, virtudes e motivações no momento em que eles ecoam em alguém. E quanto mais nos importarmos com esse alguém, maior será a reverberação. Quando o outro não nos olha, não nos vê, nega a possibilidade desse reflexo necessário. Nos deixa sem rumo. Ou nos devolve a ele: nada melhor que uma boa dose de realidade para nos acordar da ilusão romântica e devolver a razão para a mente entorpecida pelo fim da paixão.
Fazendo um esforço e nos adornando com um pouco de otimismo, dá até pra tirar algo de bom desse momento sinistro: se tudo passa, essa impressão de ser menos que um chiclete mascado também vai passar. E, um dia, voltaremos a ter gosto. Bom gosto.
Mesa-redonda é coisa de mulherzinha
Se você duvida disso é porque não entende nem de um nem de outro.Mesa-redonda de futebol é insensato, passional, redundante e tumultuado - igualzinho à mente feminina. Por isso não consigo compreender homens que dizem amar futebol e não entender as mulheres. Como assim, se os dois funcionam exatamente do mesmo jeito?
O jogo acabou. A partida foi 2 pro Piraporinha e 5 pro Grêmio das Bananeiras (um deles por pênalti). Minutos depois, um grupo de portadores do cromossomo Y se junta em algum estúdio de TV e começa a discutir, ferozmente, se aquele lance no 14o minuto do primeiro tempo foi mesmo impedimento. Manda o replay. "O juiz estava certo, imbecil!" Re-replay.
Lá pelas tantas, no meio de dezenas de frases amontoadas e arremate algum, uma segunda questão é levantada: foi mesmo pênalti aquela jogada do Maurinho Cearense? Porque, de acordo com o que podemos ver na câmera 2, o pé dele nem chegou perto da boca do Juninho Ziquizira. Ah, chegou! Isso é pura encenação! Encenação é o que o Pipoca fez na final do campeonato carioca de 78. E dá-lhe mais replay. Uma hora se passou. Milhares de homens acompanharam, atentos e raivosos, as certezas absolutas (também conhecidas por achismos vazios) dos caras na tela e então chegaram à conclusão de que... a partida ficou 2 pro Piraporinha e 5 pro Grêmio das Bananeiras. Um deles por pênalti. Se você vê sentido nisso, como pode não ver sentido no fato de ela te convidar pra sair e depois não querer transar?
A mente feminina funciona com a mesma lógica de uma mesa-redonda: os pensamentos colidem o tempo inteiro (esquizóides berrando com voz aguda) e nada faz muito sentido no primeiro momento (ou para quem não está envolvido no assunto). Vivemos jogando na cara dos outros fatos passados que, apesar de mortos e imutáveis, continuam bem vivos em nós - tão vivos que ainda fomentam reações apaixonadas. Fazemos replays mentais sobre o que dissemos, como nos portamos, como agimos: ah, se eu tivesse feito diferente. Ah, se você não tivesse falado aquilo. Ah, se o juiz não tivesse visto o maldito chute na boca do Juninho Ziquizira. Mas viu, falou e agiu. Morreu. De que adianta brigar por isso? Talvez seja útil, como experiência, para um próximo campeonato, mas não vai mudar em nada o resultado dessa partida. Então pra que, meu Deus, discutir como se fosse a coisa mais grave da superfície terrestre?
No final das contas, nós todos, meninos cartesianos e meninas caóticas, somos irracionais - só que cada um num segmento. Se as mulheres os importunam com a necessidade (algumas vezes meio excessiva, concordo) de discutir a relação, vocês nos enchem o saco com essa masturbação filosófico-futebolística. Se nós parecemos irracionais quando fechamos o tempo só por vocês terem nos interrompido no meio de uma frase pra comentar o preço absurdo do charuto cubano, serei sincera em dizer que vocês também não parecem muito sábios ao agirem como ogros raivosos no final do campeonato.
E sabe por que mulher odeia tanto esses programas esportivos? Porque eles são a materialização da nossa falta de método mental. Mas tem mais (e pior): em nós, vocês odeiam essa particularidade. Xingam, se lamentam pros amigos como sua namorada é louca. Mas, naquele bando de marmanjos, acham graça e, pasmem, vêem sentido! Vai entender os homens...
Então, meus caros, em questão de falta de lógica, surto e destempero, empatamos. Se quiserem discutir o placar, estamos às ordens. Só não vale dedo no olho nem tocar no assunto TPM - aí, sim, vocês terão motivos de sobra pra nos chamar de doidas.
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O que você precisa ter para ser amado?Durante muito tempo acreditei que o que me fazia amar um homem era a inteligência. Ficava enfeitiçada com citações, elucubrações e teses. Mas não era. De nada adianta um perito em física nuclear, se ele não rir das pequenas besteiras que faz, se não souber aproveitar um sábado quente simplesmente não fazendo nada (e curtindo o ócio), se virar um psicopata quando alguém o fecha no trânsito. Então saquei: bom humor era o que mais me atraía.
Sempre achei delicioso estar com alguém que não vê o mundo como uma grande e monstruosa boca cheia de dentes prestes a mastigá-lo, que vive sem arrastar correntes, faz de tudo uma possível piada. Só que nem tudo é uma piada e, em certas horas, tudo o que quero é alguém que me escute e diga algo que me conforte a alma. E, nesses momentos, o pior que pode acontecer é ser levada na piada - existe uma grande diferença entre alegria de viver e recusa a sair da infância. Pois é, não era bom humor o que me fazia amar alguém: era, antes, sensibilidade.
Telefonemas de bom-dia, atenção a informações aparentemente banais mas que dizem muito a meu respeito, não ficar azedo e arredio por causa das minhas pequenas (ou grandes) oscilações de humor - tudo o que eu podia querer. Quase tudo. Tenho personalidade forte e só sobrevive ao meu lado um homem que grite comigo quando eu passar dos limites do bom senso, demonstre desagrado quando eu exigir demais e oferecer de menos. Preciso ser cuidada, mas tenho que sentir que quem está comigo é um homem de verdade e não um principezinho criado pela avó. Quero ser domada, tomada. Mais uma vez minha certeza caiu por terra: nem inteligência, bom humor ou sensibilidade eram o que me fazia amar alguém. Era - isso, sim - virilidade.
Mal abrir a porta da sala e ser consumida por beijos. Ter a roupa arrancada no caminho da cozinha, ser jogada na mesa de jantar sem tempo pra pensar no que está acontecendo, só sentir e saber o tesão incontido daquele homem por mim. Ser desejada com urgência e paixão é um dos maiores elogios que uma mulher pode receber, mas só ser desejada de nada adianta, pelo menos não depois da décima trepada monumental: quando acaba o suadouro, o que resta? Se pouco importa o saldo, o que interessa mesmo é a movimentação, então estamos feitos. Mas, se existe a possibilidade de ser esmagada pelo vazio de sentido após o orgasmo, de nada vale. Pelo menos se não vier acompanhada de carinho. Taí: pensei, então, que carinho era a pedra fundamental pra despertar meu amor.
Mas logo descobri que não era. Carinho é um sentimento abrangente demais: nos invade desde a visão de um cachorro abandonado até a palavra confortadora para alguém que pouco nos importa mas a quem também não queremos mal. Não bastava, era muito pouco. Daí constatei que o essencial para que eu amasse alguém era notar no outro a vontade de ficar, o desejo de estar comigo. Constatei coisas demais e fiquei paralisada diante do ideal que havia criado: absurdo e fictício.
Hoje, enfim, aprendi que toda enumeração é uma estupidez e qualquer tipo de formulário emocional, uma passagem sem escalas pra frustração. Claro que gosto de homens cultos, atenciosos, interessantes, divertidos e viris - seria mentira negar. Mas a verdade é que, para que eu ame alguém, basta que eu ame alguém. Porque, quando se precisa justificar o amor, é porque ele não existe. Simples assim.
Já era
Nunca sabemos ao certo quando deixamos de ser importantes.É triste perceber que quem tanto me importa não olha por mim, apenas me vê. Não altera em nada sua lista de prioridades quando preciso de socorro, atenção. Apenas (depois, sempre depois) desculpa-se. Diz que as coisas estão complicadas. Está constantemente ocupado, atrapalhado. Sempre se sai com ótimos motivos para não ter ido, feito, acompanhado. Conhece meus gostos, minhas neuras, o porquê do riso rasgado. Sabe o número do meu telefone, onde vivo, mas mora num outro universo, do qual não tenho o endereço, nem pertenço: é péssimo notar que sou pouco para quem é muito pra mim.
E não se trata de desdém, nem de rancor. É mais sutil e menos óbvio, por isso tão doído (sei que o carinho existe, mas anda tímido). Pode até me surpreender com telefonemas, e-mails, conversas à toa, mas não está presente nos momentos críticos da minha vida. Torna-se incomunicável, desaparece. Não fica ao meu lado. Não pega o lenço para que eu possa continuar chorando, sem medo de julgamentos. Não traz da cozinha a garrafa da minha bebida preferida para comemorarmos. Não me abraça quando faltam palavras, não me afaga quando elas não bastam. Sei que aquela pessoa, tal qual a recordo, existiu, só não sei em que ponto deixou de ser real para se tornar um holograma da minha mente. Uma suspeita de surto: será que me enganei desse jeito? Talvez não tenha me enganado, apenas o tempo nos tenha tornado diferentes demais e já não andemos na mesma direção.
Talvez.
A vida acaba nos trazendo, inevitavelmente, amigos assim (que chamamos "amigos" por desconhecimento de termo mais adequado). Amores assim. Pessoas que estiveram conosco, compartilharam e construíram nossa história, mas que, sabe-se lá quando e por que, descompassaram. Alguns até continuam presentes, mas jamais estiveram tão ausentes. Outros fazem questão de dizer o quanto somos importantes, especiais, e eis um alerta que não ignoro: sempre desconfiei de quem fala "Você pode contar comigo", "Qualquer coisa, me liga", "Nunca vou te esquecer". Isso se mostra calmamente, no dia-a-dia, não se legaliza numa promessa. É preciso tempo, e é só com ele que saberei se essas palavras significam algo ou são mera formalidade. Me mostre que eu posso contar com você, não me diga isso.
Talvez percamos o sentido de existir na vida de algumas pessoas, por mais importantes que tenhamos sido (ou que supomos ter sido). Nossa permanência torna-se oca de significado. Desbota. Gradualmente, sumimos. E não há nada de errado nisso. De triste, sim (todo fim é triste), mas não de errado: não dá para exigir ser amado. Errado é mantermos à nossa volta, atrelados a nós por compulsão ou necessidade de companhia, quem não tem mais nada a nos oferecer. Para quem oferecemos tão pouco.
Quantos sinais são necessários até compreendermos que já não nos importamos com alguém?
Homens, esses obsoletos
Será mesmo que as mulheres são tão independentes quanto parecem?Olhe para aquela presidente de empresa, pra prefeita de São Paulo ou pra esta colunista: todas donas de si, independentes, articuladas. Todas colocaram o mundo em seus bolsos e seguiram em frente, firmes, do alto de seus saltos. Nenhuma demonstra desânimo, fragilidade - afinal, bem-sucedidas, bonitas (algumas), do que poderiam reclamar? Relacionamentos não são prioridade em suas vidas: os projetos pessoais são muito mais importantes e grandiosos do que a perspectiva de ter alguém para jantar num sábado à noite. Aliás, os homens vêm se tornando cada vez mais dispensáveis e entediantes. Excetuando o sexo, temos com as amigas tudo o que poderíamos obter da companhia de um homem, com a vantagem de não precisarmos omitir os pensamentos espúrios e politicamente incorretos em prol de uma atitude elegante. Chegou o tempo em que nos bastamos.
O parágrafo acima é uma grande mentira.
O feminismo certamente foi o responsável por profundas mudanças sociais e comportamentais - é por causa dele que escrevo aqui, numa revista masculina. Por causa do triunfo de seus ideais que estudei, moro sozinha e ainda não casei. Se minhas amigas nunca tivessem queimado sutiãs, provavelmente agora eu estaria em casa tricotando um colete pro meu marido pançudo enquanto cuidava, à beira da insanidade, dos nossos três filhos gordos. Mas o tempo passou, a sociedade mudou, as mulheres já não precisam mostrar os dentes feito feras para fazer o que querem da vida: é só fazer. O problema é que todo esse esforço por libertação deixou um certo rancor residual, uma necessidade insaciável de provar auto-suficiência, um comportamento defensivo e acusatório perante os homens. E, como conseqüência, formou-se uma geração de mulheres que vagam por aí, carentes e incapazes de pedir carinho, tão poderosas quanto sozinhas.
No afã de repelir tudo o que significaria levar a vida de nossas avós - filhos, casa, cachorro, casamento -, jogamos fora uma parte imensa de nós, algo que nenhuma fogueira de sutiã vai mudar: nossa necessidade intrínseca de receber e dar afeto, poder ser frágil quando a vida é dura, ficar deitada ao lado do homem que se ama e, por que não, cuidar dele quando isso se faz necessário ou desejado. Apagamos isso de nossos registros e substituímos por uma atitude vigilante, pronta pra competir (e, invariavelmente, ganhar), defendendo a qualquer preço a liberdade - que, por culpa de alguma neurose secreta, sentimos poder ser tirada de nós a qualquer instante. Um patológico pavor da burca, que nos faz repelir os ímpetos protetores masculinos como se fôssemos ser amarradas ao pé da cama. Nos tornamos ditadoras neuróticas, tal qual os homens que provocaram nossa ira. Décadas depois, continuamos nos sentindo incompreendidas e solitárias - só que, agora, na margem contrária.
A verdade é que, por detrás da grossa armadura, nosso desejo inconfessável é voltarmos a ser ternas e perdermos o medo de que isso seja usado contra nós. É não nos sentirmos patéticas por desejarmos, vez por outra, ser cobertas de gentilezas. Tudo de que precisamos é que alguém nos ajude a sair da torre que construímos para nos defender, porque é muito frio aqui em cima.
O interminável domingo de garoa
O tédio pode significar muito mais do que você imaginaVivemos horas nas quais tudo parece suspenso feito poeira no ar. Um irritante slow motion. Por mais que se acelere, o motor não responde ao comando. Ao redor, as coisas seguem na velocidade normal, só nós ficando pra trás a observá-las se distanciar e tomar seu rumo. E isso é tudo o que gostaríamos de ter, um rumo.
Mas não temos. Naqueles instantes, os caminhos à nossa frente parecem aborrecidos e sem cor, mas o dia está aí e o cumprimos, passando ao largo da depressão, a milhas do autocompadecimento - não estamos assolados pela tristeza. Não. O problema é que não somos assolados por nada além de um tédio indescritível. Cadê o entusiasmo? Quando ele falta, tudo o que nos toca soa igual, nada muito bom, nada muito mau. Nos enfurecemos por não estarmos felizes apesar de termos todo o material para isso. Por sentirmos uma necessidade indefinível de algo mais: mais brilhante, mais excitante, mais apaixonante. Algo forte o bastante para nos fazer acordar e ter vontade, seja lá do que for. Qualquer coisa que nos deixe famintos e sedentos. Então eles chegam, os sensatos. Dizem para recobrarmos o bom senso e entender, de uma vez por todas, que a felicidade está numa satisfação tênue, sem grandes vértices. Tarde de outono.
Numa dessas voltas da vida, ela vem e nos encontra. Durante algum tempo respiramos tranqüilos - alguns se mantêm assim até cerrarem os olhos, os sortudos -, outros notam algo de errado nessa satisfação. É comida que não sustenta, luz de relâmpago. Assustados, culpam-se por não se satisfazerem, por precisarem de outros erros, paisagens, amores, brigas. Sonham com uma sensação que jamais experimentaram e sequer sabem se existe. Crêem numa alegria maior, confiam nela. Pessoas de fé. Fé numa existência plena de sentido e esvaziada de resignação. Podem ser ingênuos, mas e daí? O que importa é a coragem de tentar ser mais.
Aceitar a mediocridade como destino nos faz rascunhos do que poderíamos ser se bancássemos nossos desejos e abolíssemos o discurso "a vida é assim mesmo". Não é, e algo em nós sabe disso e clama por um sentido. Alguns, por pânico do desconhecido, se fingem de mortos até o questionamento passar. Infelizmente, uma hora ele passa. E leva consigo milhares de oportunidades ignoradas, não vividas.
Há pessoas que se contentam com o que suas mãos alcançam. Outras, almas inquietas, trazem em si a urgência visceral de ir além. Sabem que cada momento da busca tem uma razão, principalmente os difíceis (sem dúvida eles existirão). Seguem ao encontro da plenitude, mesmo sem saber se ela é um delírio ou uma conquista pessoal possível. Será esse o quinhão de prazer que nos cabe? Como saber se é melhor ficar com o que quase nos satisfaz ou arriscar conseguir o que realmente se deseja? Como ter certeza de que o prêmio vale o perigo?
Não dá pra ter certeza, o negócio é baseado no risco. E é quando arriscamos topar com a dor que nos tornamos inteiros. Só no instante em que decidirmos viver plenamente é que poderemos, enfim, começar a ser felizes.
Felicidade de orquídea
Existe vida numa relação sem sexo?Vocês estão juntos há um tempão e se amam. A conta conjunta está no vermelho, a sua prima é amiga da tia dela, vocês compraram uma casa. Com tudo isso, qual o problema de, num domingão, em plena sessão de cinema no sofá, dar mais vontade de ficar deitado juntinho do que de transar? Nenhum, se isso acontecer uma vez ou outra. O problema começa quando só se tem vontade de ficar juntinho. Piora se, depois de várias reprises dessa cena, um dos dois muda de opinião sobre ser tão gostoso assim apenas ficar juntinho. E se torna insustentável na hora em que ela (ou você) se sente um lixo erótico, a versão humana do peixe-boi.
Ela o apóia nas horas complicadas, implica com seus amigos, te pentelha se sente seu bafo de cachaça e não rola a menor tensão sexual entre vocês? Então você não tem mais uma mulher: tem duas mães.
Sentir-se desejado é tão vital quanto vitamina C: um agarrão inesperado, uma sacanagem ao ouvido fazem o dia valer a pena, reluzem o ego. A ausência desses pequenos carinhos e, mais tarde, do ranger da cama, é um tremendo indicador de que tem algo bem errado na relação.
O tesão é a demonstração instintiva do quanto queremos aquela pessoa perto, dentro, misturada a nós. Ou do quanto não fazemos questão disso. Já passou da hora de acabar com essa hipocrisia de que, depois de um tempo, o sexo se torna desimportante para os casais. Como assim? Quer dizer que num determinado momento viramos samambaias? Não, mas nos tornamos peritos em negar o óbvio: a relação está, sim, na UTI.
É impossível não ficar abalado quando nosso parceiro e o abajur surtem o mesmo efeito sobre nossa libido, mas é possível ignorarmos os sintomas e continuar "nos dando superbem". A vaca vai de vez pro brejo quando buscamos em outros corpos os toques, beijos e orgasmos ausentes e tão necessários.
Será que vale a pena viver comendo fora ou menosprezar a própria sexualidade em prol de um relacionamento estável?
Não, não vale. Cedo ou tarde ele deixará de ser estável para ser penosamente estabilizado (e dará cada vez mais trabalho, feito carro consertado em mecânico ruim). Existem, sim, diversos fatores essenciais numa boa relação: cumplicidade, amor, apoio, carinho, mas isso tudo é insuficiente sem tesão. É como biscoito de polvilho: é até gostosinho, mas não mata a fome. É preciso muito mais sustança.
E, uma noite, adormecemos angustiados ao lado da pessoa que escolhemos para tornar a vida melhor, mais clara. Nos damos conta de que viramos amiguinhos. Somos tomados por uma insatisfação que nada consegue sanar: nos sentimos incompletos por vivermos numa farsa particular. E entristecemos, porque é mesmo doloroso notar que não bastam amigos, filhos, móveis e lembranças para sermos felizes ao lado de alguém: nenhum passado em comum salva um presente inegavelmente divergente. Não basta a vontade de ficar juntinhos no sofá: tem que existir desejo. E, se ele estiver mesmo morto, o melhor a fazer (pelos dois) é aceitar que você a amará por muito tempo - um amor fraternal e cuidadoso -, mas que deve vagar seu lugar na cama.
Se dá pra ser feliz numa relação sem sexo? Claro que dá. Se você for uma orquídea.
Parada obrigatória
Às vezes a distância é a melhor coisa que pode acontecerNa guerra ou na vida, períodos de recuo são essenciais em qualquer boa estratégia. Ou simplesmente acontecem, atropelando nossa vontade-mesmo assim, continuam sendo estarrecedoramente úteis (depois de passada a raiva por termos sidos detidos na marcha, claro). Eles nos forçam a enxergar a situação sob outro prisma, com mais frieza e, por isso mesmo, de forma mais acertada e isenta dos erros de julgamento que a intensidade e a bile nos levam a cometer (o significado do ditado chinês "o lugar mais escuro é sempre debaixo da lâmpada" tornou-se, de repente, tão claro para mim como areia em dia de sol).
O grande barato de, vez por outra, nos distanciarmos do que é nos importa é sentir o que esse redimensionamento nos causa. E seja ele qual for, a retomada nunca é insípida: ou nos faz enxergar a placa de "rua sem saída" que teimávamos em não ver ou, feito polimento em prata, devolve o brilho ao que o tempo havia enegrecido. Talvez por isso alguns casais só se entendam depois de uma separação: a dor, a sensação de ficar sem centro gravitacional, não ter mais ali ao lado quem se ama, pode provocar verdadeiros milagres na dinâmica de uma vida em comum (e na vida solo). Mas não podemos contar com milagres, precisamos da razão. O problema é que nossa suposta sapiência tende a sub-avaliar o que se tem ou (talvez seja pior), exagerar na importância e, se quisermos ser felizes, é inútil proclamar independência emocional ou tornar-se escravo das paixões. Qualquer extremismo nos isola-e, curiosamente, é só dando um pequeno mergulho na solidão que compreendemos o valor do que nos rodeia e mora dentro de nós.
Tente um Monet Depois de sofrer feito o cão por encarar tudo na base do oito ou oitenta, fiz um pacto comigo mesma: jamais levaria coisa alguma a ferro e fogo porque nada importa tanto. Absolutamente nada é imprescindível. Nem ninguém. Esse não é um discurso de auto-suficiência, pelo contrário, é uma reflexão de alguém que aprendeu na porrada (ou melhor, no choro) que só relativizando, tornando a existência e o coração mais leves, é que se pode ser feliz e, então, ser feliz com alguém. Pare de arrastar correntes, levar tudo tão a sério: a única coisa que você vai conseguir é uma úlcera. Cuide de quem ama mas não faça disso o objetivo da sua vida porque ficará, inevitavelmente, frustrado quando não tiver deles o que deu pra eles. Ou não tiver deles o que você ACHA que eles deveriam devolver. E será bem feito: você fez o que quis, porque quis, então não venha reclamar o troféu. Não existe prêmio para quem doa amor. Por isso, distanciar-se deveria ser uma tarefa cotidiana: evitaria que fôssemos sugados pelo redemoinho que sempre começa logo ali nos nossos pés, mas estamos ocupados demais pra ver. Evitaria que exercêssemos de forma tão eficaz, e perigosamente despercebida, nossos piores defeitos.
Quando algo começar a te enlouquecer, enfernizar ou surtar, use a técnica dos grandes admiradores de arte: recue diante da tela, mude de ângulo em relação a ela, observe as cores, os traços e os detalhes que, na correria, sempre passam despercebidos. Então notará que ela é muito mais do que aquele ponto preto que ficava, insistente, diante dos seus olhos.
Ser feliz, no final das contas, não é questão de sorte ou azar. É questão de perspectiva.
Gol de segundo tempo
Casar de novo pode ser sua maior vitória.Meu marido solta pêlo: os azulejos brancos do chão do banheiro ganham, toda manhã, desenhos abstratos feitos de pequenas espirais negras que insistem em grudar no meu pé (só ando descalça em casa e sempre termino com coisas estranhas entre os dedos). É tão peculiar que merecia ser instalação da Bienal.
Eu tenho mania de limpeza.
Uma das minhas gatas, toda vez que não posso (ou não quero) dar carinho a ela, vai direto pra pia do banheiro e, em ato de protesto, faz cocô. Daqueles inspirados.
Ele, até pouco tempo, desprezava felinos.
Ele tem um filho de pouco mais de um ano que, a cada quinze dias, passa o final de semana com a gente.
Eu, até ontem, gostava de criança há cinco quarteirões de distância.
A família dele é grande, cheia de cunhados, pimpolhos e agregados, e adora passar feriados na chácara, à beira da piscina, fazendo churrasco e tomando cerveja.
Eu tenho tendência a solidão.
Ele ama carros, guitarra e motos.
Eu, televisão, livros e Woody Allen.
No carro, ouve Iron Maiden no último volume.
Eu ouço John Pizzarelli, baixinho.
Tínhamos tudo pra dar errado. Mas damos certo.
Tínhamos tudo para nem pensarmos em uma vida em comum, mas ambos trazem algo em si que nos fez rir das (aparentemente) problemáticas diferenças e construir uma deliciosa vida juntos: estamos no segundo casamento.
A vitória da esperança sobre a experiência? Pode até ser, mas prefiro acreditar que se trata mais de ter aprendido, com o dia-a-dia, que se ater a detalhes dissonantes é um atalho bom à beça pro precipício. Viver com alguém é muito mais do que compartilhar experiências passadas comuns: é ter o desejo quase incontrolável de ter experiências futuras comuns. Não é pensar ter encontrado quem louve tudo o que amamos e odeie tudo o que desprazamos-isso é narcisismo, não casamento. Estar casado é respeitar os maus humores, deixar passar comentários sabidamente imbecis ou atitudes impensadas. É gostar de acordar ao lado, respeitar o desejo de solitude ocasional (e não tomar isso como uma confissão de repulsa). Estar casado é saber a hora de prestar atenção e o momento de se fingir de morto.
Questão de referencial
O segundo casamento é mais leve, apesar de ambos terem mais carga.
Traz os medos de repetir os erros do primeiro, mas também a vontade de não cometê-los. Aumenta a maleabilidade e diminui a petulância. Dá a dimensão exata do que é compartilhar a vida com alguém-e também a de que a mesma não acaba se essa pessoa for embora.
O segundo casamento ri de si mesmo porque sabe que é bem melhor do que chorar ou xingar.
Ele carrega o know-how do primeiro e preserva a inocência do pra sempre.
Jamais me casei pensando em me separar, nem sou daquelas mulheres que constróem muros emocionais para se proteger da vulnerabilidade que o amor carrega; apenas sou prática e crédula o bastante pra sacar que, se uma coisa acaba, é porque outra vai começar. Outra melhor, mais brilhante, completa. Não somos obrigados a acertar de primeira, e não é nenhum demérito tentar de novo. Não é nenhum pecado ser feliz, mesmo se a pessoa que viveu conosco ainda acreditar piamente nisso.
O segundo casamento me deu a lição que me fez uma mulher menos encanada e briguenta e muito mais zen: se ele solta pêlo, bem que eu posso calçar os chinelos.
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